Cristina Teixeira de Oliveira, 33 anos, não é cantora, não é operadora de tele-marketing e nem trabalha fazendo imitações. No entanto, ela também ganha a vida com a voz. Cristina é vendedora de bilhetes lotéricos no Centro de BH. Quem já passou, durante o dia, pela rua Goiás, esquina com rua da Bahia , já deve ter ouvido a moça: “Mega-Sena acumulada, 25 milhões é o prêmio acumulado da Mega-Sena pra hoje. Acumulou a Mega-Sena pra hoje”.
(Clique aqui e ouça Cristina trabalhando. Sempre passo por ela, por volta das 2 da tarde. Nunca comprei bilhetes lotéricos em minha vida, mas sempre quis parar para conversar com aquela moça. Nesta semana, parei e pedi um pouco de seu tempo).
Cristina é cega desde que nasceu. “Eu nunca soube o que é ver, pois nunca vi. Não consigo definir uma cor, nem nada. Tenho glaucoma congênito”, conta. Para ela, entretanto, “o fato de já ter nascido assim fez com que as coisas fossem mais fáceis”. Mas em que sentido? (estranhei) “É claro que temos nossas limitações, mas uma pessoa que enxerga e perde a visão durante a vida tem muito mais dificuldades que eu. São pessoas acostumadas com tudo, levam uma vida ‘normal’, e, de uma hora pra outra, perdem a visão, então elas se sentem com muito medo, ficam inseguras”.
Cristina trabalha há 14 anos vendendo bilhetes lotéricos. Foi seu primeiro e único trabalho. “Eu sempre tive sorte para vender”. Sorte e voz. Por trabalhar de segunda a sexta, das 7h30 às 16h (com exceção das tardes de segunda e quarta), Cristina quase sempre fica rouca à noite. “Tomo muita água, água filtrada. Quem trabalha com vendas e usa muito a voz não pode tomar coisas geladas, deve evitar ao máximo. Eu uso também própolis na garganta, faço gargarejo com água morna com sal”.
Antes de trabalhar no lugar atual, ela ficava na rua Curitiba, em frente à Galeria do Ouvidor. “Mas fui obrigada a sair de lá, por dois motivos”. O primeiro deles foi a chegada de lojas como Ricardo Eletro e Casas Bahia, “que colocavam som muito alto, o que me impossibilitava de gritar”, diz. “A outra razão é o pessoal de uma joalheria, que implicava comigo, alegavam que eu atrapalhava a loja, pois a funcionária que trabalhava no caixa estava errando muito as contas... diziam que eu gritava muito alto”.
Cristina não sabe dizer ao certo quantos bilhetes vende ao dia, pois depende do prêmio ou se a Mega-Sena está acumulada. Ela acredita que, por ser mulher, isso ajuda. “Geralmente os homens dão mais preferência para as mulheres... não que eu esteja discriminando, mas, em geral, as pessoas são mais solidárias a nós...”
Durante nossa conversa, que durou cerca de 10 minutos, quatro clientes se aproximaram. Todos já a conheciam e a chamavam pelo nome. Um deles já chegou cumprimentando: “Cristina, tudo bem? Me dá uma mega-sena, aí! Quero um bilhete premiado”, brincou. “Esse aqui, Flávio, está premiadíssimo, disse Cristina, sorrindo”. O senhor compra bilhetes toda semana: “dou preferência a ela, pois faço duas coisas ao mesmo tempo: ajudo e arrisco a sorte”, falou, já saindo, antes que eu fizesse mais perguntas...

Quando chega um cliente, ela nota na hora. “Tenho uma noção muito boa, consigo perceber pela sombra, quando se aproxima uma pessoa”. “Você percebeu, então, quando eu estava chegando?”, perguntei. “Percebi, só não percebo quando estou distraída. Se eu estiver atenta, andando devagarzinho, dá pra eu sentir que há alguma coisa na minha frente, não dá pra definir o que é, mas sinto a sensação de algo, aí sei que devo parar para não trombar”.
Já aconteceu de alguém dar o dinheiro errado, de má-fé, sem que ela percebesse? “Uma vez ou outra já aconteceu, sim”, disse. “Mas pessoas que compram comigo toda semana, ou quase todos os dias, geralmente não fazem isso, não.”.
Para não atrapalhar mais seu trabalho, agradeço pela conversa, e me surpreendo com a pergunta: “A entrevista vai passar na televisão para gente assistir?”. Não, Cristina, vai ficar só no site mesmo. “Ah, mas que pena, mas quando precisar pode voltar, tá?”, completa.
Eu me despeço e me afasto. As pessoas em volta estão com pressa, entram em um banco, sacam dinheiro, as pessoas param, esperam, atravessam a rua, os carros buzinam, enquanto dois moços sentam na calçada, uma mulher de salto alto arruma o cabelo e Cristina volta ao trabalho: “Mega-Sena acumulada, 25 milhões é o prêmio acumulado da Mega-Sena pra hoje. Acumulou a Mega-Sena pra hoje”.
Vocês sabiam que o Papai Noel do Bairro, de barba branca, cumprida e com roupa vermelha, pode ser um dos nossos próximos vereadores? Também podem o Célio Miranda Menino Bom, o Alberto Cowboy e a Sônia Barbosa Kate Marrone. Como ocorre em toda eleição, chega a ser engraçado, de tão bizarro, o horário eleitoral para vereadores (e para prefeito?). Alguém já viu os dessa temporada? Quem estiver em casa por volta das 13h ou 20h30, recomendo. Neste ano, eles estão mais criativos do que nunca.
Foto: Thiago Ventura/Portal UAI
Criatividade é o que não falta, mesmo. Um candidato (foto acima), fã do roqueiro Raul Seixas, diz que irá acabar com os corruptos, se eleito. Ao terminar sua fala de apresentação, ele canta “Viva a Sociedade Alternativa, Viva!”. Ainda no tema musical, o Vovô do Rock, outro candidato, diz que é pela “valorização do Rock em BH”. Importante, não? Fundamental para resolver os problemas sociais de BH.
Há ainda aqueles que, na falta de criatividade, tentam algum bordão. Walter do Bicho, por exemplo, “brinca” com o trocadilho infame "Esse é o bicho!". Já um outro gosta mesmo é de rimas: Lindomar Já Ouviu Falar. Perceberam a rima rica? No quesito rivalidades, um tal de Raposão diz que é contra uma tal candidata do Galo. Falando em aves, um candidato diz que é filho do Sabiá. Ah, sim, OK! Já o Hamilton Cabeleireiro é corporativo: “Cabelereiro vota em cabelereiro”. E idiotas votam em idiotas?
Nas eleições passadas, havia uma evangélica que, após pedir nosso voto, terminava seu discurso dizendo que “feliz é a nação cujo Deus é o senhor”. Acho eu, porém, que "felizes" somos nós, os belohorizontinos, que temos candidatos assim, que fazem de coisa tão séria, como a política, mera piada!
Um apanhado de frases feitas, clichês, convicções, desabafos ao léu, falas ditas para ninguém que todo mundo escuta...

Alguns bairros de BH guardam ainda semelhanças com cidades do interior de Minas. Onde eu moro, por exemplo, é comum pessoas à noite conversarem na porta de casa. Uma outra particularidade, muito comum em cidades menores, porém, acredito que não aconteça mais em Belo Horizonte. Eu me refiro às visitas de casa em casa feitas por Testemunhas de Jeová. Na cidade onde mora grande parte de minha família, no entanto, a 90 quilômetros da capital, isso é bastante comum. Abro exceção neste blog que fala sobre o cotidiano de BH, para contar caso curioso que ocorreu semanas atrás logo aqui perto, em Conselheiro Lafaiete.
Devido à constância das visitas dos Testemunhas, um padre de uma igreja local resolveu tomar um tempo da missa para falar sobre o assunto. No final de julho, meu tio estava assistindo a um culto católico e recebeu uma “cartilha” sobre como podemos “ficar sem as visitas dos Testemunhas de Jeová todo santo dia”, como diz o próprio folheto. Durante a missa, o padre explicou que, “apesar de se julgarem cristãos, eles permanecem isolados de todas outras congregações cristãs”.
Na cartilha, eles literalmente ensinam como “afugentar” os Testemunhas. “A Igreja deles tem uma regra interna que é pouco divulgada, mas que é o nosso direito civil, como cidadão brasileiro: o direito de não ser incomodado quando o assunto não é de nosso interesse. Assim, para que os Testemunhas não passem na sua casa (literalmente eles vão pular a sua casa), siga os passos abaixo”, diz o folheto.
E os “passos” são os seguintes: a cartilha pede que o católico preencha um formulário (veja abaixo) e o entregue para os Testemunhas de Jeová. “Entregue e diga: Não quero que vocês batam mais em minha casa, porque já tenho minha religião e estou muito feliz nela. Se elas insistirem ou começarem a fazer perguntas, simplesmente repita a declaração e entregue o formulário”, diz o folheto, que finaliza: “Não dê conversa aos Testemunhas, pois senão vão insistir com você. Feito isso não baterão mais na sua casa”.
Intrigante. Por que uma religião prega aos seus fiéis esse comportamento? Qual o motivo para temer outra religião? É o medo de perder fiéis? O mais engraçado é que no folheto, na contra-capa, a primeira informação que aparece é sobre a cobrança do Dízimo, contribuição financeira voluntária dos fiéis durante a missa. Após explicar o motivo de “tantos católicos negarem o Dízimo” à Igreja, eles reiteram o convite: “Venha e participe das celebrações, trazendo a generosidade de seu Dízimo”. O discurso contra os Testemunhas será, então, medo de perder o Dízimo?
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Ir ao cinema é a prática cultural mais popular no Brasil. Uma pesquisa*sobre os hábitos de lazer da população da Região Metropolitana de SãoPaulo aponta que 35% das pessoas foram pelo menos uma vez ao cinema nosúltimos 12 meses. Pouco? Sim, muito pouco. E por que dados de SP em umblog sobre o cotidiano de BH? A resposta é questão para um segundopost, mas simplificadamente, encontrar indicadores culturais quecontextualizem o tema no Brasil é coisa rara. A boa notícia é que ocenário de pesquisa na área cultural vêm mudando para melhor com aprofissionalização do setor.
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Há algum tempo, vi uma moça caída no chão, na frente da Faculdade de Medicina, na Alfredo Balena, às 6 e pouco da noite. "Normal", é o que mais vemos ultimamente ao andar pelo centro de BH. Porém, me chamou a atenção (mais do que ela estar jogada no chão) foi ela estar “apagada” e com mão e braço roxos. Fiquei assustado e fui ao Pronto Socorro do João XXIII ao lado, menos de 50 metros de distância. Fui direto ao Samu, aquele serviço de atendimento de urgência.
O Grito, Edvard Munch (1893)
"Amigo, é urgente: tem uma moça caída e roxa no chão", eu disse. "Não posso atender, trabalhamos por satélite e somente atendemos por meio de chamadas pelo 190". "Mas a mulher está a 20 passos de você, aqui do lado", retruquei. "Não podemos".
Fui à secretaria, procurei alguém e um cara da portaria me acompanhou até onde estava a moça. Seu braço e mão continuavam roxos, ela seguia “apagada”. O rapaz disse que sabia quem era ela, velha conhecida, dormia sempre nas redondezas, não adiantaria levar pro hospital, que voltaria pra rua. Ele cutucou a mulher, chamou e ela despertou por instantes e voltou a “dormir”. Fui embora.
Em 2004, assistia a um telejornal, quando passou a premiação de uma série de reportagens que um jornalista fez sobre a fome. Fiquei sabendo, na época, que uma das moças entrevistadas morreu de fome dias depois. Não quero julgar o repórter, nem o câmera, mas fiquei imaginando. Entrevistaria alguém que há dias não come, está pra morrer e daria um tchaw? Teria um contato com aquela pessoa, conversaria com ela, sairia e diria... até mais?
No caso da moça de braço roxo, fiquei sem saber o que fazer, após a negativa do hospital. Não tinha (ou tinha?) como pegá-la no colo, colocá-la nas costas e levá-la pra algum lugar. Mas, ao mesmo tempo, é tão gritante passar ao lado de uma pessoa nessa situação e não fazer nada... assim como não fez nada o repórter. O jornalista estava trabalhando, eu estava indo pra casa. Fiquei chocado com a atitude do repórter ao sair e deixar a moça morrer de fome, mas será que eu não faria o mesmo, assim como deixei a moça de braço roxo no chão?