16 julho 2008

TRÂNSITO

 

Dentro e fora...

 

 

 

Muitas vezes passo pela Avenida Pedro II, ela liga minha casa a quase todos os caminhos pelos quais preciso ir no dia-a-dia. Quando estou de ônibus, esse percurso fica muito mais longo, posso observar os detalhes. Quando é noite, fico atenta às prostitutas. Elas me intrigam muito, principalmente no frio. Mas quando ainda é a tardinha, não observo nada em especial, apenas o comércio aberto, o engarrafamento, pessoas vestidas, com rostos enconstados nos vidros sujos, sem nojo, apenas cansaço.

 

 

Um dia eu estava em pé, em frente a porta do meio do ônibus. Comecei a reparar o caminho.

Logo quando saímos da Afonso Penna, na entrada do viadulto, tem um salão de beleza para homens, um barbeiro para ser mais exata. Um homem sentado na cadeira verde, com pedaços da espuma aparencendo, a cara mirada para o espelho, a espera da navalha. Pensei sobre a sua coragem em permitir, em tempos tão descartáveis, que outro senhor lhe fizesse a barba com uma navalha que devia ser da idade da cadeira que lhe acomodava.  Se esse homem erra o pêlo?

 

 

Mas os pensamentos foram muito rápidos, deixaram os homens e suas navalhas. Logo que o coletivo subiu a rua avistei outra cena: as janelas da Lagoinha. Sempre tento imaginar aqueles predinhos há uns cinquenta anos, trinta. 

A Lagoinha faz parte da zona boêmia da cidade, a zona mesmo, não da boêmia gloriosa onde nascem os sambas, mas daquela onde as pessoas andam bem sujas com facas pelas ventas. Mas ainda assim gosto de olhar para aquelas janelas, esconderijos de samambaias com muitas raizes, companheiras das feias meretrizes, de olhos molhados e saltos arranhados.

 

 

Certa vez fui lá, cismei de olhar as velharias, as lojas da Lagoinha são quase todas de quinquilharias, antiquários mal arrumados, cheios de armários, cadeiras de balanço, baús, coisas antigas, mas tudo sem lustrar. Sonho em ter um baleiro incrível, como o que existia na venda do Seu Geraldo, com as tampas de metal, separação para as balas duras e as de caramelo.

 

 

Encontrei um, vários, caríssimos, voltei sem baleiro, um pouco suja e sonhando com o dia em que vou montar uma casa toda de móveis da Lagoinha. Ah, não me deparei com nenhuma prostituta, uma pena. Fiquei tentando reconhecer mulheres, mas todas tão comuns quanto eu, talvez tenham olhado para mim com a mesma suspeita.

 

 

Mas eu estava falando de ônibus, tenho essa mania terrível de imendar um assunto no outro. O silêncio é assustador.

 

 

Eu estava pensando nesse dia, em que vi o barbeiro e seu cliente e que vaguei pelas janelas da Lagoinha, em como a cidade vive, acorda, trabalha e dorme.

Um mocinho atrás do balcão da papelaria. A dona tirando xerox de sua identidade. Uma faixa anunciando vaga para vendedor. A caixa da loja de peças para carro coçando a perna com o bico do salto. Um casalsinho namorando no monza rebaixado. A mulher com os braços cheios de sacolas tentando abrir a bolsa para atender o celular. Os pontos lotados. As pessoas com preguiça. As amigas falando mal da professora. A outra com cara de que terminou com o namorado. O homem fazendo negócio pelo telefone, todo mundo ouvindo tudo, todo mundo dentro e fora do ônibus. Tudo anônimo, menos os personagens da novela das oito.

 

 

Engarrafamento é um saco... demora!

 

 

 

 

Votos: 1
Tags: transito  pedro  II 
04 julho 2008

LEMBRANÇAS QUE A LARANJA TRAZ

 
 
 
 
 
Um velho sentado na calçada
chupando laranja Serra D'água na segunda
com o almoço já descendo pelas veias
ia arremeçando as sementes com dificuldades pela dentadura
 
 
e enquanto chupava a laranja
pensava em sua velha lá deitada no caixote
 
 
pedra bonita em cima da terra
foto sorrindo em cima da pedra
 
 
como se estivesse feliz lá embaixo
tinha horror à aranha
a coitada
 
 
Se não tivesse lá
tava cá
chupando laranja também
 
 
só que ela cortava a tampinha furando
e não deixava lágrimas caírem
pra azedar a doçura sem gosto
de laranja Serra D'água
que ela tanto gostava

Votos: 2
Tags: poema 
01 julho 2008

NA BEIRA DO CAIXÃO

 
 
Alguém foi ao velório do meu primeiro amor?
Eu ainda não tive coragem de vê-lo
Eu tentei deixá-lo em tantos lugares
Eu tentei ver amores nos sorrisos desconhecidos
 
 
O fim dói tanto que anestesia
Coloquei sacos de gelo no peito
Mais pra cima, coloquei golos de álcool
 
 
Retirei as fotos da vista
Retirei-me das vistas
Estou vazia feito o vento
Que de tantas coisas não possui coisa alguma
Com gosto horrível de guarda-chuva
 
 
O amor, quando primeiro, tem grande consideração
A consideração é branda, chega devagar
Burocrática
Não combina com o amor
Pinta tudo de cinza e muito bem pintado
 
 
A consideração substitui o amor
Tão forte, grande, vermelho, o amor antes tão incrível
 
 
Quando ouvi dizer que acabou
Não entendi
 
 
Não sabia que fosse possível
Dentro de mim ainda não é
Mas quando tiver coragem
Vou sepultá-lo como se deve

Votos: 2
Tags: poesia  retalho  amor  velorio