Dentro e fora...

Muitas vezes passo pela Avenida Pedro II, ela liga minha casa a quase todos os caminhos pelos quais preciso ir no dia-a-dia. Quando estou de ônibus, esse percurso fica muito mais longo, posso observar os detalhes. Quando é noite, fico atenta às prostitutas. Elas me intrigam muito, principalmente no frio. Mas quando ainda é a tardinha, não observo nada em especial, apenas o comércio aberto, o engarrafamento, pessoas vestidas, com rostos enconstados nos vidros sujos, sem nojo, apenas cansaço.
Um dia eu estava em pé, em frente a porta do meio do ônibus. Comecei a reparar o caminho.
Logo quando saímos da Afonso Penna, na entrada do viadulto, tem um salão de beleza para homens, um barbeiro para ser mais exata. Um homem sentado na cadeira verde, com pedaços da espuma aparencendo, a cara mirada para o espelho, a espera da navalha. Pensei sobre a sua coragem em permitir, em tempos tão descartáveis, que outro senhor lhe fizesse a barba com uma navalha que devia ser da idade da cadeira que lhe acomodava. Se esse homem erra o pêlo?
Mas os pensamentos foram muito rápidos, deixaram os homens e suas navalhas. Logo que o coletivo subiu a rua avistei outra cena: as janelas da Lagoinha. Sempre tento imaginar aqueles predinhos há uns cinquenta anos, trinta.
A Lagoinha faz parte da zona boêmia da cidade, a zona mesmo, não da boêmia gloriosa onde nascem os sambas, mas daquela onde as pessoas andam bem sujas com facas pelas ventas. Mas ainda assim gosto de olhar para aquelas janelas, esconderijos de samambaias com muitas raizes, companheiras das feias meretrizes, de olhos molhados e saltos arranhados.
Certa vez fui lá, cismei de olhar as velharias, as lojas da Lagoinha são quase todas de quinquilharias, antiquários mal arrumados, cheios de armários, cadeiras de balanço, baús, coisas antigas, mas tudo sem lustrar. Sonho em ter um baleiro incrível, como o que existia na venda do Seu Geraldo, com as tampas de metal, separação para as balas duras e as de caramelo.

Encontrei um, vários, caríssimos, voltei sem baleiro, um pouco suja e sonhando com o dia em que vou montar uma casa toda de móveis da Lagoinha. Ah, não me deparei com nenhuma prostituta, uma pena. Fiquei tentando reconhecer mulheres, mas todas tão comuns quanto eu, talvez tenham olhado para mim com a mesma suspeita.
Mas eu estava falando de ônibus, tenho essa mania terrível de imendar um assunto no outro. O silêncio é assustador.
Eu estava pensando nesse dia, em que vi o barbeiro e seu cliente e que vaguei pelas janelas da Lagoinha, em como a cidade vive, acorda, trabalha e dorme.
Um mocinho atrás do balcão da papelaria. A dona tirando xerox de sua identidade. Uma faixa anunciando vaga para vendedor. A caixa da loja de peças para carro coçando a perna com o bico do salto. Um casalsinho namorando no monza rebaixado. A mulher com os braços cheios de sacolas tentando abrir a bolsa para atender o celular. Os pontos lotados. As pessoas com preguiça. As amigas falando mal da professora. A outra com cara de que terminou com o namorado. O homem fazendo negócio pelo telefone, todo mundo ouvindo tudo, todo mundo dentro e fora do ônibus. Tudo anônimo, menos os personagens da novela das oito.
Engarrafamento é um saco... demora!
