Blog do Krieger


Quinta-feira, 24 de julho de 2008

É tudo uma questão de ajustes no modelo... A charge do Kacio

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Quinta-feira, 24 de julho de 2008

Coluna Nas Entrelinhas, publicada pelo Correio em 24 de julho

Longe da torcida

As pesquisas mostram que as matérias pró-Obama podem garantir votos para o candidato democrata, mas estão levando a opinião pública a desconfiar do que lê

Por Gustavo Krieger
gustavo.krieger@correioweb.com.br

O Correio publicou ontem uma interessante reportagem sobre as eleições presidenciais dos Estados Unidos. O texto relatou o esforço desesperado do candidato republicano John McCain para combater o que chama de “bizarra fascinação” da mídia do país por seu adversário, Barack Obama. Políticos costumam reclamar da imprensa com a mesma veemência com que técnicos de futebol se queixam dos árbitros depois de uma derrota de seus times. Mas nesse caso a preocupação de McCain é lastreada em números e evidências.

Uma pesquisa do Projeto Excelência no Jornalismo, sediado em Washington, mostra que desde a definição de Obama como candidato, o democrata foi citado com destaque em 78% das matérias sobre as eleições. McCain teve destaque em 51% das reportagens. Uma diferença bem superior aos números que separam os dois nas pesquisas. A distorção se repete na cobertura de televisão. Levantamento do jornal inglês The Times mostra que, desde junho, as três principais redes de tevê americanas dedicaram 114 minutos à cobertura da campanha de Obama e apenas 48 para McCain.

Antes de mais nada, é preciso reconhecer que Obama tem mais potencial de notícia que McCain. O senador democrata representa a novidade na política americana. Negro, jovem, com um discurso calcado na palavra “mudança”, é uma espécie de antítese do estereótipo político norte-americano. McCain, ao contrário, parece talhado para representar esse estereótipo. Bem mais velho, veterano de guerra, com uma carreira consolidada na política e um discurso conservador. É quase um duelo de caricaturas, como se fossem personagens de um filme hollywoodiano.

Dito isso, é necessário reconhecer que o fator decisivo para dimensionar a importância jornalística de um candidato não é sua simpatia, mas seu potencial de chegar ao poder. E nesse quesito, há poucas diferenças entre os dois postulantes à presidência. A opinião pública americana enxerga mais que interesse jornalístico nos critérios para distribuição de espaço e no tratamento dado aos candidatos. Pesquisa da Rassmussen Reports mostrou que 49% dos entrevistados acham que a maioria dos repórteres tenta ajudar Obama em suas matérias. Apenas 14% acreditam que há uma tentativa de auxiliar McCain. E menos de um quarto dos americanos acredita que a cobertura seja imparcial.

Aqui no Brasil, acusações de que a imprensa defende este ou aquele candidato são comuns a qualquer eleição. Em alguns casos, são justas. Em outras, não passam de paranóia misturada ao discurso agressivo de quem quer condicionar a mídia. Nos últimos tempos, como fruto da radicalização, esse tipo de acusação deixou de ser monopólio dos políticos. Jornalistas passaram a acusar os desafetos de partidarismo ou de estar a soldo de algum interesse político. Criou-se até um mercado específico para jornalistas que assumem ter lado e usam seus espaços como tribuna.

Imparcialidade é um dos conceitos mais polêmicos nas discussões sobre jornalismo. Muitos acreditam que ela não existe, inclusive eu. Acredito, sim, em objetividade. Vou buscar um exemplo no jornalismo esportivo. Sou gaúcho e no Rio Grande do Sul as pessoas se dividem em dois grupos: os que torcem pelo glorioso Grêmio de Foot-ball Portoalegrense e os que simpatizam com a outra equipe de lá. Em seus espaços de opinião, os jornais abrem espaços iguais para a parcialidade. Se há um colunista gremista, há outro que torce para o outro time. Nas reportagens, há um enorme cuidado para não assumir lados e não irritar as patrulhas. Nos últimos anos, o Grêmio abrilhantou a Série B do Campeonato Brasileiro. A outra equipe foi campeã mundial. Mesmo os escribas tricolores tiveram de reconhecer o fato e escrever objetivamente sobre ele.

Daqui do Brasil e sem a condição de influenciar um mísero voto que seja nos Estados Unidos, confesso torcer por uma vitória de Obama. É um direito que tenho por não ser um jornalista americano. Se fosse, teria de me policiar para que as opiniões pessoais não contaminassem meu trabalho. A tentação de “dar uma empurradinha” no candidato preferido é uma das grandes armadilhas no caminho de quem escreve sobre política. E uma das mais perigosas. As pesquisas americanas que citei acima mostram que as matérias pró-Obama podem até estar garantindo mais votos para o candidato democrata, mas também estão levando a opinião pública a desconfiar do que lê e a procurar uma agenda oculta por trás das reportagens. A médio prazo, isso é fatal para a credibilidade de qualquer veículo de comunicação.

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Quarta-feira, 23 de julho de 2008

Remédio amargo

À tarde, Lula deu a senha e anunciou que o governo endureceria o combate à inflação. No início da noite, o Comitê de Política Monetária (Copom) realizou a profecia: a taxa Selic passou de 12,25% para 13% ao ano.

 

O governo parece disposto a adotar remédios amargos contra a inflação.

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Quarta-feira, 23 de julho de 2008

Imagem é tudo: a charge do Kacio

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Quarta-feira, 23 de julho de 2008

Inflação em alta, otimismo em baixo

Deu no G1:

 

A confiança do consumidor reduziu-se ao seu menor nível em dois anos, para índice igual ao registrado em junho de 2006. Segundo a Fundação Getulio Vargas (FGV), o Índice de Confiança do Consumidor (ICC) recuou 4,9% na passagem de junho para julho. Na comparação com o mesmo mês do ano anterior, o ICC apresentou variação negativa de 5,8%.

 

Meu comentário: há algum tempo venho escrevendo que há uma correlação direta entre índices de inflação e os de popularidade do governo. A economia em paz impulsionou Lula. A crise o ameaça. O Índice de Confiança do Consumidor fica no meio termo. Mostra como a população reage aos números da economia. A tendência de otimismo foi revertida. Não por acaso, o governo tem na inflação sua maior preocupação.

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Quarta-feira, 23 de julho de 2008

Ligando os pontos

Ler jornal é uma atividade complicada. Muitas vezes, para entender o que acontece, é preciso relacionar as notícias. Por exemplo, veja o primeiro texto do Estado de S. Paulo:

 

De Mônica Ciarelli:

Os saques nos fundos de investimento do Grupo Opportunity já somam mais de R$ 1,8 bilhão desde que a Operação Satiagraha da Polícia Federal (PF) foi deflagrada, com a prisão da cúpula do grupo, no último dia 8 de julho. Segundo a PF, o Opportunity fazia parte de esquema de desvio de recursos públicos, lavagem de dinheiro e uso de informação privilegiada, entre outros crimes. Ao todo, foram expedidos 24 mandados de prisão e 56 de busca e apreensão. Entre os presos estiveram o sócio-fundador do grupo, Daniel Dantas, o investidor Naji Nahas e o ex-prefeito de São Paulo Celso Pitta.

 

Agora leia o segundo, que saiu no Globo:

 

De Jailton de Carvalho:

A Receita Federal começou ontem a fazer uma devassa nas contas de aproximadamente cem pessoas suspeitas de envolvimento no suposto esquema de sonegação fiscal e evasão de divisas do Opportunity, do banqueiro Daniel Dantas. Os fiscais estão fazendo a análise a partir dos laudos do Instituto Nacional de Criminalística (INC) sobre o disco rígido (HD) do principal computador do banco, aberto pela Polícia Federal na Operação Satiagraha. As primeiras análises indicam ainda conexões entre alguns clientes do Opportunity e o caso Banestado, o maior escândalo financeiro já investigado pela PF.

 

Entendeu os saques????

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Quarta-feira, 23 de julho de 2008

A imprensa apaixonada

O Correio publica hoje uma matéria muito interessante na editoria de Mundo, questionando a imparcialidade da imprensa americana na cobertura das eleições presidenciais. Os jornalistas estariam encantados pela candidatura de Barack Obama. Reproduzo o texto por achar que ele coloca uma reflexão importante:

 

Sucessão nos EUA
A imprensa já tem seu favorito

Pesquisas confirmam que a mídia poucas vezes foi tão favorável a um dos candidatos à Casa Branca. Equipe de John McCain satiriza e questiona a inclinação dos jornalistas pelo democrata Barack Obama


Isabel Fleck
Da equipe do Correio

Jae C. Hong/AP
Obama discursa em Amã, na Jordânia: repórteres especiais e âncoras de TV acompanham em massa o candidato na turnê pelo Oriente Médio

johnmccain.com/Reprodução de internet - 22/7/08
Site de McCain faz ironia com a cobertura e convida os internautas a escolherem a trilha sonora
 
“É bem evidente que a mídia tem uma fascinação bizarra por Barack Obama. Alguns dizem até que é um caso de amor.” A frase está na página principal do site do candidato republicano à presidência dos Estados Unidos, John McCain, e faz parte de uma ação desesperada com o propósito de chamar a atenção dos eleitores para a cobertura das eleições na mídia americana. A preocupação do republicano é compreensível. Desde que o rival se declarou o candidato democrata à Casa Branca, no começo de junho, McCain foi citado com relevância em 51% das matérias sobre a eleição de novembro. Obama teve destaque em 78% do noticiário, de acordo com a organização de pesquisa Projeto pela Excelência no Jornalismo, sediada em Washington.

Na televisão, o cenário parece ser ainda mais complicado para o veterano senador. Uma pesquisa publicada no jornal britânico The Times mostra que, desde junho, as três principais emissoras americanas — ABC, CBS e NBC, que juntas possuem 20 milhões de telespectadores — já destinaram 114 minutos de cobertura para Obama e apenas 48 para McCain. A tietagem foi confirmada quando essas mesmas redes de TV escalaram seus âncoras para acompanhar a viagem do democrata ao Oriente Médio e à Europa, de onde apresentaram os principais noticiários dos EUA.

Para essa mesma viagem, cerca de 200 jornalistas pediram credenciamento junto à equipe de Obama, mas pouco mais de um quinto deles pôde fazer parte da comitiva que está acompanhando o candidato. Já na visita recente de McCain à Colômbia e ao México, apenas duas redes de televisão mandaram enviados especiais — e nenhum deles era âncora. Ontem, a equipe de McCain revelou que o jornal The New York Times rejeitou um artigo do candidato, que seria a réplica a um artigo de Obama sobre o Iraque, publicado pelo NYT na semana anterior.

A resposta do republicano ao aparente privilégio dado ao opositor veio por meio de uma “denúncia” que, segundo a campanha, “poderia ser engraçada, se não fosse séria”. Em um e-mail enviado aos partidários do republicano, a equipe do candidato convida o internauta a votar em um dos dois vídeos que mostram jornalistas conhecidos da TV americana “se derretendo” por Obama. “Preciso confessar, meu joelhos tremem um pouco (na presença do democrata)”, afirma Lee Cowan, da NBC News. Até agora, o vídeo preferido pelos apoiadores do republicano traz como trilha sonora a música Can’t take my eyes off of you (“não consigo tirar os olhos de você).

“Os especialistas concordam que, na história americana, não existe paralelo de uma cobertura que tenha dado tanto destaque a um dos candidatos”, revela o professor Mauro Porto, do Departamento de Comunicação da Tulane University. De acordo com o especialista, o carisma, a boa retórica e o fato de ser o primeiro negro com chances rais de chegar à presidência são os ingredientes que transformaram Obama no “queridinho” da mídia. “É algo completamente inusitado. Não só os jornalistas, mas também os humoristas têm muita dificuldade em falar mal dele”, destaca Porto.

A preferência da imprensa pelo democrata já foi percebida até pelo eleitorado. Segundo um levantamento da Rasmussen Reports, 49% da população acredita que a maioria dos repórteres tenta ajudar Obama com a cobertura. Em junho, esse índice era de 44%. Apenas 14% dos entrevistados acham que a mídia tende a ajudar McCain, e menos de um quarto acredita que a cobertura seja imparcial.

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Terça-feira, 22 de julho de 2008

Na contramão

A justiça eleitoral do Rio Grande do Sul mandou tirar do ar uma página do Orkut sobre a deputada Manuela d'Ávila (PCdoB), candidata à prefeitura de Porto Alegre. Alegou que, pelas regras do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), cada candidato pode ter apenas uma forma de expressão na internet.

 

A decisão vai na contramão do conceito de informação livre representado pela internet. A rede é o meio mais democrático de comunicação. Qualquer um pode montar seu blog, site ou comunidade no orkut. E só freqüenta quem achar legal.

 

Melhor seria liberar e deixar que se destaque quem sabe lidar com as novas mídias.

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Terça-feira, 22 de julho de 2008

Esfriando Dilma

As vezes pode parecer que Lula faz movimentos políticos sem pensar. É um erro. O presidente trabalha com cuidado e pensa muito antes de qualquer gesto importante. Costuma recorrer aos balões de ensaio antes de assumir a responsabilidade por uma ação. Por isso, são importantes os movimentos de bastidor que ele vem fazendo em relação a Dilma Rousseff.

 

Primeiro, anunciou que escolherá um novo coordenador para as ações sociais. Hoje, essa é uma das muitas atribuições da ministra da Casa Civil. Mais importante: o coordenador deve ser escolhido entre potenciais presidenciáveis: Patrus Ananias, Tarso Genro e Fernando Haddad. Seja quem for, criará uma sombra para Dilma.

 

Depois, foi o anúncio de que Dilma ficará na retaguarda durante a campanha das eleições municipais, que seria o momento para que ela ganhasse dimensão nacional.

 

Lula, que colocou Dilma no centro da cena há uns três meses, a está retirando dos holofotes agora. O movimento tem duas motivações distintas. Um é preservar a ministra. Depois que o presidente a apresentou como candidata preferencial à sua sucessão, ela passou a ser alvo preferencial da oposição. Ficar na chuva tanto tempo antes da campanha é muito perigoso, especialmente para uma candidata com pouca base. A outra motivação é típica de Lula. Com a unção presidencial, Dilma vinha se tornando a candidata natural do PT e se transformando num centro alternativo de poder. E poder é algo que Lula não gosta de dividir. Esfriando um pouco a candidata, ele mantém o comando do processo.

 

 

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Terça-feira, 22 de julho de 2008

Reforma política. Sai?

Mais ou menos um mês atrás, este blog revelou que Lula encomendara um projeto de reforma política aos ministros Tarso Genro e José Múcio. O assunto foi o principal tema da reunião da coordenação política do governo ontem. O presidente encasquetou em fazer da reforma um dos atos da fase final de sua gestão.

 

Desta vez, o governo quer a reforma, o que é um passo adiante. O complicado é saber se será possível construir um consenso no Congresso. O caminho para isso é preparar um projeto que agrade os grandes partidos. Tanto da base governista quanto da oposição.

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Segunda-feira, 21 de julho de 2008

Coluna Nas Entrelinhas, publicada pelo Correio em 21 de julho

Apostas tucanas

“Se Marta vencer, Serra perde. Se o eleito for Alckmin, ele também perde. O governador apostou num candidato que tem 10% dos votos”

Por Gustavo Krieger
gustavo.krieger@correioweb.com.br

Há algumas semanas, escrevi uma coluna sobre o risco das apostas feitas pelos mais importantes governadores do PSDB: José Serra, de São Paulo, e Aécio Neves, de Minas Gerais. Os dois, que disputam a indicação para ser o candidato tucano à Presidência da República em 2010, trabalharam para que seu partido não tivesse candidato às prefeituras das capitais de seus Estados. A mais recente rodada de pesquisas do Ibope, divulgada no sábado, dá uma perspectiva do tamanho desses riscos.

A situação de José Serra é a mais complicada. Ele perdeu a disputa interna. Seu objetivo era fazer com que o PSDB apoiasse a candidatura do prefeito Gilberto Kassab (DEM). Uma aposta pessoal. Kassab chegou à prefeitura como vice de Serra em 2004 e assumiu o cargo quando o tucano saiu para disputar o governo, dois anos depois. Manteve a administração intacta, o que deu ao governador a condição de acumular o poder no Estado e na capital. Um quadro que ele pretendia manter.

Mais uma vez, seu plano esbarrou na teimosia do ex-governador Geraldo Alckmin. Em 2006, Alckmin fincou pé e disse que disputaria a Presidência da República, mesmo que as pesquisas mostrassem Serra mais bem colocado. O resultado todo mundo sabe. Alckmin perdeu a disputa pela Presidência, enquanto Serra elegeu-se governador. A derrota na disputa interna acabou se transformando numa vitória política. O quadro parece difícil de repetir.

Desta vez, a candidatura natural no PSDB era a de Alckmin. Para começar, ele é do PSDB. Além do mais, liderava as pesquisas, com índices bem melhores que os de Kassab. O governador decidiu contrariar essa tendência. Esperava reverter o quadro interno no partido. Uma vez que Alckmin estivesse afastado da disputa, seria de se esperar que os votos dele revertessem para o prefeito.

Mas Alckmin novamente recusou-se a ceder. Manteve a candidatura e venceu as resistências serristas depois de uma tensa disputa. Foi uma guerra de bastidores, bem ao estilo da política brasileira. Os dois lados trocaram cotoveladas por meses. Às vésperas da convenção, Serra fez as contas e viu que não teria os votos para vencer. Fez com que seu grupo embarcasse à última hora na candidatura de Alckmin. Uma solução que manteve a aparência externa de unidade, mas não convenceu ninguém dentro do PSDB.

Iniciada a campanha, os tucanos “kassabistas” mantiveram a postura rebelde e anunciaram a intenção de juntar-se à candidatura do prefeito. O problema é que as pesquisas foram amargas para Kassab, que ainda não conseguiu decolar. O Ibope deu apenas 10% das indicações ao prefeito, enquanto Alckmin obteve 31%, índice que o deixa tecnicamente empatado com a petista Marta Suplicy, que ficou com 34%.

Se Marta vencer, Serra perde. Os tucanos dirão que a candidatura de Kassab roubou de Alckmin votos que poderiam significar a vitória. Se o eleito for Alckmin, Serra também perde. O discurso de pacificação só funciona para fora. Dentro do PSDB, todos sabem que os dois são adversários. Olhando os números, portanto, o governador jogou todas as suas fichas num candidato que tem 10% dos votos. Pior, a campanha do prefeito começa a fazer água. Os vereadores tucanos, que estavam todos ao seu lado, estão passando para o palanque oficial do partido.

Aécio não enfrentou nenhuma briga no PSDB mineiro, que controla. Mas desafiou dogmas ao formar uma aliança com o PT. Os dois partidos apóiam Márcio Lacerda, do PSB. A candidatura de Lacerda, ex-secretário de Aécio, foi costurada pelo governador. Para vencer as resistências da direção nacional do PT ao acordo, ele fez com que o PSDB ficasse de fora da coligação formal.

O Ibope mostra Lacerda em terceiro lugar, com 8%, índice baixo para quem conta com o apoio do prefeito de BH, do governador e do presidente da República. Mas os outros números são menos preocupantes para o governador. Ao contrário de São Paulo, onde se afirma uma polarização entre Marta e Alckmin, a eleição de Belo Horizonte está em aberto. A primeira colocada, deputada Jô Moraes (PCdoB), tem apenas 17%. O segundo, Leonardo Quintão (PMDB), ficou com 14%. Nada menos que 49% dos eleitores se disseram indecisos.

As apostas dos dois governadores são altas, mas Aécio ainda parece em situação mais confortável.

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Sexta-feira, 18 de julho de 2008

Uma briga ingrata

Certas brigas já começam perdidas. É o caso da queda-de-braço que o governo Lula está travando com o delegado Protógenes Queiroz, o homem que prendeu Daniel Dantas, Celso Pitta e Naji Nahas. Um bom começo para entender porque essa é uma briga ingrata é olhar para a fotografia ao lado. É uma das poucas imagens que os jornais têm em seus arquivos do delegado. A foto, da coletiva em que ele comentou as prisões da Operação Satiagraha, mostra um Dom Quixote com curso de direito. O policial que prendeu o banqueiro, o mega-investidor e o ex-prefeito não usou gravata em seu momento de glória. No máximo, cobriu com um blazer a camiseta que usou durante a operação. Dias depois, revelou a jornalistas que não tivera nem tempo de trocar a cueca na semana seguinte. Pouco higiênico, mas heróico.

 

A leitura das peças da investigação que vazaram até agora diz muito sobre o delegado. Ele vê a si mesmo como o personagem de uma luta do bem contra o mal. Ao mesmo tempo, dá uma enorme importância ao papel da mídia no sucesso ou fracasso de suas investigações. Assim como fez com o governo e com o comando da PF, dividiu os jornalistas entre bons e maus. Aos bons, papel reservado a quem apóia suas ações, acesso às investigações. Aos maus, acusações de fazer parte da "organização criminosa". Protógenes é midiático, sim. Isso faz parte de seu estilo como policial e é indissociável dos resultados que obtém.

 

Protógenes irritou muito o governo e por muitos motivos. Incomodou o Palácio do Planalto porque a investigação chegou à ante-sala de Lula quando um dos grampos gravou o chefe de gabinete da Presidência, Gilberto Carvalho. Tirou do sério o ministro Tarso Genro e a chefia da Polícia Federal quando ignorou a cadeia de comando e buscou apoio para a operação na Abin, dirigida por seu mestre Paulo Lacerda. Mas, acima de tudo, despertou a raiva ao ressuscitar uma antiga prática da PF: os vazamentos seletivos de informações. Não se pense que o Planalto é contra os vazamentos por razões superiores. O problema é que eles tiram do governo o controle da situação e o obrigam a reagir a uma nova manchete por dia.

 

O governo passou a ver com uma lupa o noticiário sobre o caso e a identificar a mão de Protógenes por trás dos vazamentos. Irritou-se ainda mais ao ver em algumas reportagens a construção da versão segundo a qual o delegado tivera de vencer enormes resistências do governo e da cúpula da PF para levar seu trabalho adiante. O discurso oficial não engana ninguém. O governo não suporta o delegado Protógenes. Mas sabe que, ao menos nesses dias, ele se tornou um símbolo do combate à corrupção no Brasil. E que tem muitos amigos na mídia.

 

Essa avaliação explica muito da atuação (e dos erros) do governo. Depois da Operação Satiagraha, o comando da PF adotou uma conduta esquizofrênica em relação ao delegado. Internamente, a cúpula estava enfurecida por ter sido ignorada e pela parceria dele com a Abin. Mas a operação era um sucesso de mídia. Punir o responsável pelas prisões de Dantas, Nahas e Pitta seria um movimento arriscado demais.

 

Começaram as pressões que terminaram com a reunião na qual o delegado acabou aceitando se afastar do caso para concluir o curso na Academia de Polícia. Como seria de esperar, a versão não durou muito tempo. Logo começaram a vazar informações sobre o afastamento do delegado. Mais uma vez, Protógenes era o herói. O vilão, em vez de Daniel Dantas, era o governo.

 

Isso enfureceu o presidente Lula. Ele acusou o golpe na quarta-feira, quando, questionado por jornalistas, criticou o delegado por deixar o inquérito e chamou-o de volta. Bobagem. O governo nunca quis que ele voltasse. "Ruim sem ele, muito pior com ele", me confidenciou um interlocutor no governo.

 

Mas Lula estava incomodado. Ontem, começou o dia em reunião com Tarso Genro e com o chefe da PF. Exigiu providências. Vociferou contra o delegado. O governo tomou outra decisão arriscada e vazou trechos da reunião na qual ele acertou o afastamento. Não deu certo. Em primeiro lugar, porque a cúpula da PF acabou fazendo, formalmente, aquilo que acusa Protógenes de fazer escondido: vazar trechos editados de uma conversa com objetivos políticos. Pior: deu ao delegado uma nova bandeira. Agora, ele exige a divulgação integral da gravação, que deve conter trechos que desagradam o governo.

 

Mais uma vez, Queiroz é o cavaleiro que enfrenta os moinhos do Planalto. Ao governo, o papel do gigante malvado.

 

Seria bom ao governo ler Dom Quixote. Para aprender que certas batalhas não podem ser ganhas.

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Sexta-feira, 18 de julho de 2008

A história do afastamento do delegado Protógenes

A reportagem que reproduzo é a manchete da edição de hoje do Correio. Nela, os bastidores e as explicações da ação do governo contra o delegado Protógenes Queiroz.

 

TEMA DO DIA - OPERAÇÃO SATIAGRAHA
A peleja do Planalto contra o delegado

Governo pinça trechos de gravação de conversa entre Protógenes e a cúpula da PF para tentar vender a versão de que o agente federal pediu para sair do inquérito


Gustavo Krieger e Ricardo Brito
Da equipe do Correio

Carlos Moura/CB/D.A Press - 4/7/08
Lula: pressão na mídia para que o policial reassumisse o caso
 
O governo Lula entrou numa guerra de mídia contra o delegado Protógenes Queiroz. O objetivo é impedir que o policial, responsável pelas prisões de Daniel Dantas, Celso Pitta e Naji Nahas, pose de vítima de uma “operação abafa” desfechada pelo Palácio do Planalto. Ontem, a direção da Polícia Federal entregou aos jornalistas gravações com três trechos da reunião na qual Protógenes acertou sua saída do inquérito sobre a Operação Satiagraha. Ao todo são seis minutos, pinçados de uma conversa que durou mais de duas horas. Os trechos foram escolhidos para tentar provar a tese oficial, segundo a qual o delegado saiu do caso por vontade própria, para concluir um curso na Academia de Polícia.

A atuação de Protógenes irritava o Palácio do Planalto, especialmente pelo vazamento constante de informações do inquérito contra figuras do governo. Os grampos da Operação Satiagraha alcançaram até Gilberto Carvalho, chefe de gabinete do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O descontentamento gerou pressão sobre o delegado, que pediu para sair. Mas seu afastamento provocou ainda mais danos políticos.

Lula começou o dia ontem reunido com o ministro da Justiça, Tarso Genro, e o diretor-interino da Polícia Federal, Romero Lucena Menezes. O presidente avaliou que Protógenes estava vencendo a peleja pela opinião pública. Nos últimos dias, a maior parte da mídia bateu na tecla de que o afastamento do delegado seria uma represália contra o envolvimento de pessoas do governo nas investigações. Algumas reportagens traziam detalhes que só poderiam ter sido passados pelo próprio Protógenes. Para reagir, o governo decidiu tentar derrubar a versão do delegado.

À tarde, a PF deu curso à operação, divulgando as gravações, realizadas na reunião que o delegado teve segunda-feira passada com a cúpula da PF e que selou seu afastamento. Os trechos foram escolhidos cirurgicamente. Num deles, Protógenes agradece o apoio que teria recebido do diretor-geral da PF, Luiz Fernando Corrêa. A citação combate a versão de que Corrêa teria pressionado o delegado para obter informações sobre as prisões e retirado a estrutura necessária para a investigação.

Em outro trecho, o delegado registra não ter interesse em voltar à operação depois de concluir seu curso na academia. E, no último, fica decidido que ele teria prazo até hoje para concluir seu relatório e depois teria de entregar o caso a outros delegados. A versão de Protógenes é diferente. Ele tem dito que se ofereceu para continuar cuidando do processo aos finais de semana. Só depois que a proposta não foi aceita, teria anunciado o afastamento. Isso não aparece nas gravações escolhidas pelo governo.

Afastando-se agora, o delegado não poderá acompanhar etapas importantes do processo, que podem incluir novas investigações a pedido do Ministério Público. Para citar apenas uma, ainda não foi concluída a perícia nos computadores apreendidos na operação.

Investigação
O ministro Tarso Genro negou pressões contra o delegado, mas confirmou que haverá uma investigação sobre os vazamentos de informações. “Esste inquérito quebrou normas que eu impus, como a proibição de que equipes de TV fossem levadas para testemunhar as prisões. Na gravação, o próprio delegado reconhece que isso foi um erro”. Para o ministro, “o espisódio está totalmente encerrado”.

“Ele (Protógenes) terminará seu trabalho nesta sexta-feira e vai para a academia, como estava previsto”, diz Tarso. “Se o procurador responsável pelo caso quiser novas diligências, elas serão feitas por outros delegados.”
Não está descartada a possibilidade de os delegados Karina Murakami e Carlos Eduardo Pelegrini Magro, que auxiliaram Protógenes nas investigações da Operação Satiagraha e que também deixaram o caso, voltem a trabalhar no inquérito.


Trechos da gravação
Protógenes: descontentamento do comando da Polícia Federal
 

Protógenes Queiroz
(...) Eu não preciso nem falar em relação ao doutor Troncon, que é um chefe ímpar, que me deu toda (trecho editado) (…) Eu devo praticamente 100% da execução dessa operação a dois homens de bem dessa Polícia Federal. Primeiramente, eu destaco doutor Troncon, doutor Roberto Troncon. Em segundo, o doutor Leandro. Em terceiro, como coadjuvante dos dois, eu não poderia me esquecer aqui do doutor Luiz Fernando Corrêa, também. Ele era sabedor dessa operação e correu tudo bem. Acho que na minha avaliação, tirando os erros que a gente está avaliando hoje aqui, hoje aqui é uma avaliação de erro para nós corrigirmos e nos policiarmos, né? Houve a presença da imprensa aqui em São Paulo, houve. Falhou, falhou. Quem falhou? O Queiroz falhou porque o doutor Troncon me depositou e eu firmei compromisso com ele, mas falhou ao meu controle. (...)

(...) E até mesmo depois da academia eu não pretendo. A minha proposta é: eu fico até o final da operação, porque eu criei um problema para os meus colegas delegados, criei um grande problema, e eu acredito que para você (Troncon) também, e a minha proposta é essa. É permanecer a minha vinculação no seu gabinete à sua disposição até o final dos trabalhos, para não ficar aquela pecha de que Brasília vem fazer operação nos estados e deixa no meio do caminho. As minhas nunca ficaram no meio do caminho. As minhas nunca ficaram. E, a exemplo dessa, não vai ficar. Só que com um diferencial. Eu não vou estar presidindo, eu não pretendo presidir nenhuma investigação. Aí ficaria uma coisa, um trabalho, coletando dados.(...)

Roberto Troncon
(...) Se eventualmente, dentro do desdobramento natural desse inquérito que você instaurou, se você concluir antes desse período de você ir pra academia, sem nenhum problema. Agora, se não conseguir, dentro da melhor técnica, se falar não, se requer mais tempo, requer maior análise, aí a gente passa para um dos colegas. (...)

Protógenes
(…) Esse inquérito está sequinho. Eu já tenho... Como é que ele se materializou? Ele se materializa com análise do laudo, a análise do HD, que eram as informações passadas, que foi estratificadas (sic) através desse laudo da Polícia Federal, cortejado com dados atualizados no decorrer de um ano e meio de interceptação telefônica e interceptação de e-mails ao transitar documentos. Então, além de outros crimes que dão fortemente a materialidade da gestão fraudulenta, tá? E a… a estratégia foi justamente fazer três instrumentos para poder facilitar o trabalho. Aí conversei com o Fausto (de Sanctis, juiz da causa) isso e ele achou boa idéia, ainda que lá na frente tudo (sic) sucumbir. Tá, uma canal só para a sexta vara (onde está o inquérito). (...)

Troncon
(...) Agora outra coisa que é importante deixar muito claro aqui: esses inquéritos são tombados na Delefin (Delegacia de Crimes Financeiros). O Saadi (Ricardo Saadi, que vai assumir o caso) está aqui porque está como chefe da Delefin, mas o superintendente está dizendo que ele vai permanecer. (…)

Para ouvir as gravações liberadas pela PF, clique aqui.

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Quinta-feira, 17 de julho de 2008

Viva voz

O presidente Lula bateu o martelo. À tarde, a Polícia Federal divulgará trechos da gravação da reunião na qual o delegado Protógenes Queiroz pediu afastamento do inquérito da Operação Satiagraha.

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Quinta-feira, 17 de julho de 2008

No escuro

Além dos vazamentos, há outro ponto na atuação do delegado Protógenes Queiroz que irritou muito o Palácio do Planalto. Até aqui, em todas as grandes operações da PF, o presidente sempre tinha sido informado antes. Era assim quando Márcio Thomaz Bastos era o ministro e continuou com Tarso Genro. Lula soube com antecedência, por exemplo, da ação policial contra seu irmão, Vavá. Desta vez, Protógenes não criou um canal de informações com o comando da PF. Com isso, deixou o ministro e o presidente no escuro. Quando a Operação Satiagraha foi desfechada, o governo não sabia direito o que esperar e como reagir.

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