"Prefiro deixar o ministério do que deixar o juízo", disse Marina Silva. Em entrevista coletiva, a então ministra do Meio Ambiente prestou contas à sociedade. Estava emocionada. No tumulto provocado pela enxurrada de perguntas, a agora senadora tropeçou na regência. Caiu na cilada do verbo preferir: Quem prefere prefere uma coisa a outra (não do que outra): Prefiro vinho a cerveja. João Marcelo prefere sair a ficar em casa. Marina Silva prefere deixar o ministério a deixar o juízo.
"José Aparecido quer que o STF garante seu direito de manter-se em silêncio ao depor na CPI dos Cartões", escrevemos na legenda da pág. 6. O assinante Esmeraldino Henrique da Silva leu. Ops! Levou um baita susto. É que atropelamos o subjuntivo. Melhor restituir a César o que é de César: José Aparecido quer que o STF garanta seu direito de manter-se em silêncio ao depor na CPI dos Cartões.
Oba! Boa notícia na educação. Pesquisa mostra que cresce o número de brasileiros que concluem os estudos na idade correta. Rapazes e moças estão vencendo o atraso. Com eles, nós aprendemos uma regrinha básica de ortografia. Atraso, atrasar, atrasado & cia. inimiga do relógio se escrevem com s. Filhotes da preposição tras, eles mantêm a marca da família. Os outros membros do clã fazem o mesmo. É o caso de atrás, detrás e traseiro.
"Uiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii! Que dor!", reclama João Marcelo. Ele ouve, com indesejável freqüência, as pessoas dizerem "vou banhar" no sentido de "vou tomar banho". A dúvida: banhar, no caso, não tem acepção de banhar uma peça de ouro?
Trata-se da velha cilada dos verbos versáteis. Banhar é transitivo direto. Alguém pratica a ação. É o sujeito. Outro a sofre. É o objeto. A mãe (sujeito) banha o filho (objeto). Às vezes, a porca torce o rabo. O sujeito e o objeto são as mesma pessoa. Repetir o nome? Pode ser, mas fica muito esquisito (A mãe banha a mãe).
Comprometida com a clareza e a elegância, a língua oferece saída. Põe à disposição do falante os pronomes. Eles dão o recado com galhardia. A mãe banha o filho. O filho se banha. Eu me banho. Ele se banha. Nós nos banhamos. Eles se banham. Os médicos recomendam: banhe-se à noite com água morna.
Guarde isto: com expressões formadas de palavras repetidas não ocorre crase nem que a vaca tussa. É o caso de cara a cara, face a face, semana a semana, frente a frente, gota a gota, uma a uma.
Paula Aparecida escreve: "Sempre que leio ou ouço suicidar-se, fico intrigada. Sui, do latim, significa a si, de si. Cida quer dizer que mata. Então, suicidar é matar a si próprio. Usar o pronome reflexivo se (suicidar-se) não é pleonasmo?"
Quem conhece a origem do verbo acha estranho. No duro, não precisaria do se. Mas temos memória fraca. Talvez por contágio do matar-se, esquecemos a etimologia do verbinho. Os dicionários só registram suicidar-se. A nós resta dizer amém. Afinal, manda quem pode. Obedece quem tem juízo: eu me suicido, ele se suicida, nós nos suicidamos, eles se suicidam.
Faz dois anos? Fazem dois anos? Cuidado com o verbo fazer. Ele faz e acontece. Na contagem de tempo, o caprichoso torna-se impessoal. Só se conjuga na terceira pessoa do singular: Faz dois meses que cheguei à cidade. Faz anos que trabalho aqui. Ontem fez cinco anos que conheci Maria.
Olho vivo! A impessoalidade é contagiosa. Atinge os auxiliares sem dó nem piedade: Vai fazer dois meses que cheguei à cidade. Deve fazer anos que trabalho aqui. Esta semana ia fazer cinco anos que conheci Maria.
A curiosidade é geral. Estudantes, jornalistas, advogados, todos querem saber por que o porquê tem tantas caras. Ora aparece junto. Ora, separado. Ora com acento. Ora sem o chapeuzinho. Não há quem não hesite na hora de escrever uma forma ou outra. Uma pergunta, por isso, se escuta a torto e a direito:
-- Por que será? Será por quê?
Muitos chutam. Mas, como a língua não é loteria, a Lei de Murphy entra em vigor. Se pode dar errado, dá. Melhor não correr riscos. Afinal, desvendar o segredo da duplinha é fácil como andar pra frente. No fundo, no fundo, trata-se de um segredo de polichinelo.
Por que – assim, um pra lá e um pra cá – tem dois empregos:
1. nas perguntas: Por que os professores estimulam a leitura? Por que é importante a presença dos pais na escola? Por que a evasão escolar continua alta no Brasil?
2. nos enunciados em que é substituível por “a razão pela qual”: É bom saber por que (a razão pela qual) os professores estimulam a leitura. Explique por que (a razão pela qual) se impõe a presença dos pais na escola. Por que (a razão pela qual) se deve usar roupa leve no verão.
Por quê -- circunflexo só tem vez quando o quezinho for a última – a última mesmo – palavra da frase. Sabe por quê? Ele é átono. No fim do enunciado, torna-se tônico. O acento lhe dá a força: Os professores estimulam a leitura por quê? A evasão escolar continua alta, mas poucos sabem por quê.
Porque – desse jeito, juntinho como unha e carne, é conjunção causal ou explicativa: Os professores estimulam a leitura porque bons textos enriquecem o vocabulário. A evasão escolar continua alta porque muitas crianças trabalham em vez de ir à aula. Use roupa leve, porque faz muito calor no verão.
E o porquê? Assim, com chapéu, porque deixa de ser conjunção. Torna-se substantivo. Para mudar de classe, precisa da companhia do artigo ou de pronome: Explicou o porquê da evasão escolar no Brasil. Certos porquês quebram a cabeça da gente. Não sei responder a este porquê.
É isso. Não há por que temer os porquês. Quem entendeu a lição sabe por quê.
A atleta esperneou. Foi inútil. A Federação Internacional de Natação decidiu: Rebeca Gusmão será suspensa durante dois anos por uso de doping. Ela vai recorrer. Terá êxito? O tempo dirá. Enquanto o processo tramita, vale a dica.
Os substantivos derivados de verbos terminados em -nder se escrevem com s. É o caso de suspender (suspensão), compreender (compreensão), apreender (apreensão).
Diz a lenda que Rui Barbosa, ao chegar em casa, ouviu um barulho estranho vindo do quintal. Chegando lá, constatou haver um ladrão tentando levar seus patos de criação. Aproximou-se vagarosamente do indivíduo e, surpreendendo-o ao tentar pular o muro com seus amados patos, disse-lhe: — Oh, bucéfalo anácrono! Não o interpelo pelo valor intrínseco dos bípedes palmípedes, mas pelo ato vil e sorrateiro de profanares o recôndido da minha habitação, levando meus ovíparos à sorrelfa e à socapa. Se fazes isso por necessidade, transijo; mas se é para zombares da minha elevada prosopopéia de cidadão digno e honrado, dar-te-ei com minha bengala fosfórica bem no alto da tua sinagoga e o farei com tal ímpeto que te reduzirei à qüinquagésima potência que o vulgo denomina nada. E o ladrão, confuso, pergunta: — Doutor, eu levo ou deixo os patos?
"Além do secretário que pediu exoneração ontem, há outros nove envolvidos", escrevemos na pág. 7. Desperdício, não? O outros virou modismo. Sem função, sobra. Xô!
Expulsaram o latim da escola. Não adiantou. Ele vive assombrando a língua. Agora é a vez de habeas corpus. Advogados de Alexandre Nardoni e Ana Carolinna Jatobá impetraram habeas corpus pra tirar os dois do xilindró. José Aparecido, o do dossiê, ajuizou habeas corpus no STF pra ter o direito de se manter calado na CPI. Os juízes disseram não aos dois.
Vale, de qualquer forma, conhecer a intimidade da latina mágica. Expressão jurídica, habeas corpus quer dizer "que tenhas o corpo para apresentá-lo ao tribunal". Na prática, tem duas funções. Uma: pôr em liberdade quem esteja ilegalmente preso. A outra: garantir a liberdade de quem esteja ameaçado de perdê-la. Não é pouco.
Armou-se senhor barraco na Câmara dos Deputados. De um lado, o ministro da Justiça. De outro, o deputado Jair Bolsonaro. Aos gritos, um ofendia o outro. As pobres mães levaram. As instituições também. Nem a língua escapou.
Suas Excelências falaram em bate-boca. Na hora do plural, ops! Como é mesmo o plural da duplinha? Eles soltaram qualquer coisa. Maus alunos, não aprenderam na escola regra simples como andar pra frente. Nos nomes compostos formados por verbo + substantivo, só o segundo ganha plural: bate-bocas.
"Auxiliares próximos da ex-ministra contam que ela tornou-se especialmente irritadiça a partir do embate com o ministro da Agricultura", escrevemos na pág. 2. Que ousadia! Esnobamos a força do quê. A conjunção é pequena, mas atrai o pronome esteja ele onde estiver. Que tal lhe dar o devido reconhecimento? Assim: Auxiliares próximos da ex-ministra contam que ela se tornou especialmente irritadiça a partir do embate com o ministro da Agricultura.
Pleonasmo, pra que te quero? Pra esbanjar palavras, encher a paciência do leitor e desmoralizar redatores. Vale o exemplo de agora há pouco. O Supremo Tribunal Federal decidiu não decidir hoje sobre a Reserva Serra do Sol.Repórteres se apressaram a dar a notícia. E lá veio o desperdício:
-- Supremo adiou pra depois a decisão sobre a reserva de Roraima.
Ops! Baita redundância. Só se pode adiar alguma coisa pra depois, pra outro dia ou pro futuro. Ganha um bombom Godiva quem conseguir adiar pra ontem, pra antes, ou pro ano passado. Não há dúvida. Ninguém saboreará a delícia.
Marina Silva saiu. Ministério vago, Lula foi atrás do substituto. Conjugou, então, o apreciado convidar. Preocupado com a escolha, buscou a regência correta do verbo.
No dicionário de verbos e regimes, encontrou resposta para a construção nota 10: quem convida convida alguém para alguma coisa.
Lula convidou Carlos Minc para se sentar na cadeira de ministro do Meio Ambiente. Ele aceitou.