Blog da Conceição


Domingo, 12 de outubro de 2008

Gama de aniversário







Acima, Flora Gonzaga e família, uma das primeiras moradoras
do Gama. Abaixo, o Bezerrão, obra de Ruy Ohtake






O Gama está de aniversário. Faz 48 anos hoje. É uma das mais bonitas cidades-satélites. Foi planejada pelo engenheiro Paulo Hungria num platô que parece estar um degrau acima das demais cidades. E está mesmo: a altitude média do Gama é 1.200 metros. É uma cidade plana, ampla, de vias largas, muitas praças redondas. O traçado original tem a forma de uma colméia cheia de favos, que são as quadras em formato hexagonal.




A cidade que todo mundo ama (“quem ama mora no Gama”) nasceu para abrigar uma invasão — as cidades-satélites são o recado dos brasileiros aos modernistas, algo do tipo: Também queremos usufruir da modernidade. Os primeiros moradores do Gama foram famílias retiradas da Vila Amaury, a invasão que foi coberta pelo Lago Paranoá. 




Tudo o que o Gama sonha e espera com a maior paciência é a inauguração do novo Bezerrão, obra do arquiteto Ruy Ohtake, o mesmo que fez o Brasília Shopping e ex-Blue Tree que hoje se chama Brasília Alvorada Hotel. Adiada muitas vezes, a inauguração estava marcada para o aniversário da cidade, mas foi remarcada para 19 de novembro, com o amistoso Brasil x Portugal.



O Gama não se cansa de esperar pelo novo Bezerrão, que há mais de sete anos está sendo construído.





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Domingo, 12 de outubro de 2008

Morando no moderno (2)







Cezar Barney trabalhou no lendário Departamento de Urbanismo e Arquitetura, de onde brotaram os riscos dos palácios, das superquadras, das igrejas, dos monumentos da nova capital. Quando Barney chegou à cidade, em 1961, ela já estava inaugurada, mas ainda havia muito por fazer. Em 1971, ele construiu a casa onde mora, na QI 5, Lago Sul. Tem laje plana e alvenaria de tijolos chapiscados. O recuo do térreo cria uma zona de proteção que protege o salão principal.


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Domingo, 12 de outubro de 2008

crônica da cidade

         

Ilustração: Poteiro

 

Homens de brio

 


Ainda há honestidade e brio no mundo. E não creio que seja artigo tão raro assim. Pois vejam o que aconteceu com o Joelson, infografista do Correio. Ele perdeu a carteira com os documentos pessoais e cartões de débito e crédito. Correu para bloquear os cartões. Já tinha perdido boa parte do dia, da noite de sono e do bom humor, quando foi à banca de revista a caminho do trabalho, hábito diário.

 


— O senhor esqueceu sua carteira aqui ontem. Não sabia como avisá-lo. Fiquei esperando que senhor voltasse, disse-lhe o dono da banca. — Veja se está tudo em ordem.

 


Não sem constrangimento, Joelson conferiu a carteira. Tudo no lugar. Fosse um homem menos contido, Joelson teria abraçado e beijado o jornaleiro, mas sua timidez o impediu de gestos mais debragados.

 


Agradeceu, saiu, foi ao caixa eletrônico e voltou para gratificar o jornaleiro.

 

— De jeito nenhum…, era minha obrigação.

 

— Por favor, aceite, é de coração.


 

— De modo algum, repetiu o dono da banca.

 

Joelson insistiu até que o jornaleiro contraiu os músculos do rosto, como quem diz: "O senhor está me ofendendo…". Joelson desistiu.

 

Ao saber dessa história, o Lafetá contou a sua. A bolsa da mulher dele, Vânia, foi roubada. O casal já estava dando os telefonemas de praxe, quando um morador de Ceilândia ligou para dizer que tinha encontrado a bolsa e nela um número de telefone.

 

Lafetá foi ao encontro do homem. Pegou a bolsa e conferiu os pertences da mulher — com o mesmo constragimento de Joelson. Mas antes de ir para Ceilândia, Lafetá armou-se de uma quantia em dinheiro.

 

— Eu me disse que tinha de gratificar aquele homem, mas não com qualquer trocado. Tinha de ser um valor que doesse no meu orçamento.


 

Lafetá queria presentear o homem com um salário mínimo, mas o cidadão ceilandense não aceitou de jeito nenhum. Lafetá insistiu, mas o senhorzinho continuou firme:


 

— Não fiz isso por dinheiro. Fiz o que gostaria que fizessem comigo numa situação dessa.


 

O jeito foi agradecer penhoradamente e se despedir do benfeitor.


 

Mas antes de sair, Lafetá deixou o dinheiro sobre um móvel, sem que os moradores percebessem.


 

Pouco tempo depois, recebeu o telefonema da mulher do morador. Ela chorava, agradecia e dizia que eles estavam passando necessidade, que o marido era muito sistemático, mas que aquele dinheiro vinha em muito boa hora.
 


 

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Sábado, 11 de outubro de 2008

Morando no moderno






Casa de Milton Ramos, Lago Sul


Detalhe da residência oficial do arcebispo, projeto de Glauco Campello


Obra do Zanine, Setor de Mansões do Lago Norte


Projeto do Lelé, Park Way


A arquitetura modernista de Brasília não se resume a Niemeyer e nem aos palácios, aos monumentos, à Esplanada. Ela pontilha o Plano Piloto, especialmente o Lago Sul, com as casas projetadas pelos arquitetos que participaram da construção da cidade ou por outros, que vieram depois, seguindo o rastro do modernismo.


A arquiteta Ana Paula Barros de Ávila tem uma dissertação de mestrado, Uma introdução à arquitetura residencial de Brasília: as três primeiras décadas, na qual ela rastreou essas casas e seus respectivos arquitetos. Está na lista o próprio Niemeyer, com a casa do Park Way, onde morou nos primeiros anos da cidade. Mas estão também João Filgueiras Lima, o Lelé, com  uma casa também no Park Way, muito conhecida pela sua cor de tijolo e muitos arcos, mas que pouca gente sabe que é do Lelé.


Há também uma casa que o Zanine no Setor de Mansões do Lago Norte, a do Milton Ra
mos, morto recentemente. Glauco Campello fez a residência oficial do arcebispo de Brasília, na QL 12.  


Depois postarei outras casas modernistas.          


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Sábado, 11 de outubro de 2008

crônica da cidade



O vôo dos passarinhos falantes



Revoada de meninos aterrissou no Parque Ana Lídia ontem de manhã. Alunos de escolas públicas (e de algumas particulares) desembarcaram de 22 ônibus e aproveitaram cada metro quadrado do parque, cada brinquedo (três deles quebrados), cada minuto do passeio. A maioria das crianças era de escolas de Ceilândia. Centenas de passarinhos barulhentos voavam nos balanços, escalavam os escorregadores, mergulhavam nas ocas, subiam no foguete, a maior e mais querida peça do parque.


 

O parque tem só uma ducha e um vaporizador que asperge uma nuvenzinha úmida e carinhosa. Havia fila tanto numa quanto noutro. E empurra-empurra de criança sob o pequeno círculo de água, uma gota para mais de quinhentas cabecinhas. Havia fila nos banheiros, fila para o cachorro-quente com refrigerante que uma das escolas levou para seus alunos. (O panelão no chão, por falta de mesa desocupada e a imensa e paciente fila de uma gente miúda, mas com muita fome).



Muitas das crianças saíram de casa preparadas para ir à praia ou à piscina. Biquíni, sunga, toalha. Tudo para conseguir ficar um minuto, quando muito, debaixo da ducha e mesmo assim ficar muito feliz por isso. O desejo de água era tanto que tinha gente brincando de nadar na areia. De encher baldinho de areia, fazer castelinho de areia, fazer bolinho de areia.



As crianças da Chechinha e Escolinha Doce Lar, é esse mesmo o nome, puseram uma bandana na testa, com seus respectivos nomes. Ganhariam o concurso dos mais criativos. E também dos mais organizados para o passeio. As tias levaram colchonetes que, juntos, se transformaram numa espécie de tatame. As mochilas — como havia mochila no Ana Lídia ontem pela manhã, santo-pai! — da Chechinha Doce Lar estavam cuidadosamente enfileiradas ao redor do tapume. (Uma criança dormia, sob a proteção de um pequeno cobertor).



Aos poucos, elas foram saindo, decolando barulhentamente (mas em fila!) de volta para suas cidades, cheias de areia e de lembranças de uma manhã no Parque Ana Lídia.
Mas as centenas de meninos e meninas das cidades-satélites no parque do Plano Piloto revela uma enorme fratura, mais uma, na geografia social de Brasília. Não só o Parque Ana Lídia há muito não ganha novos brinquedos, mas há muito mesmo, como as cidades ao redor não têm seus próprios Ana Lídia. Uma capital de 2,5 milhões de habitantes e um único parque para seus milhões de habitantezinhos.



Sorte das crianças, e das crianças que têm pouco, é que elas ficam felizes com passeio de ônibus, charrete colorida, gangorra de cavalinho, tartaruga descascada, salgadinho croc-croc, copo de refri. E como falam e gritam e correm. Não vi uma única criança triste.


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Sexta-feira, 10 de outubro de 2008

O que eles disseram (sobre Brasília)


Desenho de Picasso para Yuri Gagarin




Yuri Gagarin, o primeiro homem a orbitar a Terra, a Juscelino: “A idéia que tenho, presidente, é a de que estou desembarcando num planeta diferente, que não é a Terra”.



Jânio Quadros, depois da renúncia: “Cidade malsinada esta. Espero numa mais voltar aqui”.



John dos Passos, escritor norte-americano: “É como se isto fosse Pompéia ao contrário”.



Paulo Mendes Campos, cronista: “(a construção de Brasília) mostrou a qualidade mais admirável do ser humano, que é a de encontrar soluções rápidas e imaginosas para situações aparentemente sem saída”.



Abade Pierre, célebre ativista francês dos anos 60: “(Brasília) é uma loucura, mas uma loucura sublime e necessária.” 
 





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Sexta-feira, 10 de outubro de 2008

Brasília, metrópole nacional




Brasília é a terceira cidade de maior influência no país, segundo pesquisa divulgada hoje pelo IBGE. A pesquisa serviu para identificar os principais centros urbanos do Brasil, cujos critérios de análise foram: a presença de órgão do Executivo, do Judiciário, de grandes empresas, de oferta de ensino superior, de serviços de saúde e domínios de internet. O IBGE também avaliou as cidades pelas áreas de cobertura das emissoras de tevê, da diversidade de serviços bancários e de comércio. O IBGE investigou também as linhas de ônibus existentes nas cidades, os principais destinos dos moradores locais para obter produtos e serviços.



A cidade mais influente do país é, claro, São Paulo. Depois, o Rio. Brasília tem influência sobre o oeste da Bahia, alguns municípios de Goiás e noroeste de Minas Gerais. É a rede de influência que tem o mais alto PIB per capita, impressionantes (e indecentes) R$ 25,3 mil. A indecência deve-se ao fato de que Brasília é a cidade que abriga os mais altos salários e ao mesmo tempo um entorno de miséria e abandono. Entenda-se por entorno não somente as cidades fora do quadradinho. A população sobre a qual Brasília exerce influência é de 9, 6 milhões de habitantes. São Paulo é de 51 milhões; Rio, de 20 milhões.



Vale observar que Goiânia é centro de referência do sistema de saúde do país. Brasília não é. Mesmo assim, é grande a movimentação de moradores do oeste baiano em busca de atendimento especializado na capital do país. 


São Paulo, Rio e Brasília são as únicas metrópolis nacionais. Das doze metrópolis do país (São Paulo, Brasília, Rio, Manaus, Belém, Fortaleza, Recife, Salvador, BH, Curitiba, Porto Alegre e Goiânia), somente Brasília e Manaus aumentaram seu poder de influência, de acordo com esses critérios do IBGE, nos últimos 40 anos.


      

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Sexta-feira, 10 de outubro de 2008

crônica da cidade



Obra de Toulouse Lautrec



Petronila,
perdida e expulsa


A cidade se chamava Livre, tinha uma região denominada ZBM, a zona do baixo meretrício do tempo em que a prostituição ficava de um lado e a vida supostamente decente de outro. Era um território livre de impostos, de prefeitura, de código de obras e de postura. Era um grande acampamento de gente solta no mundo. Aos poucos, as famílias foram chegando ou se formando. Era uma cidade de pensões, hotéis, bares, boates, restaurantes e puteiros, e não raro todas essas categorias se juntavam numa mesma casa de madeira.


Portanto, era de se esperar uma Cidade realmente Livre, mas não era. Havia um código de honra obscuro, olhos que vigiavam pelas frestas das casas, gente que denunciava este ou aquele à polícia dependendo do seu grau de intolerância ou de interesse. A truculenta GEB detinha, prendia, batia e julgava, absolvia ou condenava. Era a dona da lei e da ordem.



Foi nesse território falsamente livre que viveu Petronila Maria de Jesus, mais não sei sobre sua origem (pelo nome, deve ser nordestina), idade, estado civil, cor da pele, instrução, nada. Sabe-se tão somente que ela morou na Cidade Livre e em Taguatinga. E que teria sido expulsa de Brasília porque os vizinhos assim quiseram e a polícia assim decidiu.



Documentos guardados no Arquivo Público do Distrito Federal revelam que Petronila foi considerada uma moradora “inconveniente” e que deveria ser expulsa da cidade “a fim de que esta criação continue sadia, honesta e ordeira”.



Carta do comissário de polícia ao subprefeito do então Núcleo Satélite de Taguatinga expõe as razões para a expulsão: “de acordo com os vizinhos, [Petronila vem] tornando-se inconveniente como moradora neste Núcleo, segundo as sindicâncias feitas por mim, apurei que a citada mulher entrega-se ao vício a embriaguez, e quando acha-se neste estado promove discussão com os vizinhos, ofendendo-os com palavras obscenas, deixando assim transparecer sua índole como pessoa indecente, indesejável ao nosso convívio que tanto a V.S. e eu estamos de comum acordo combatendo os maus elementos e os expulsando deste Núcleo, a fim de que esta criação continue sadia, honesta e ordeira”.



Não há registro de que Petronila tenha mesmo sido expulsa da cidade ou se saiu e não mais voltou ou se ficou por aqui.




 

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Quinta-feira, 09 de outubro de 2008

Curvas de carne e concreto







A primeira miss Brasília na capa de O Cruzeiro, edição de 1959. As colunas do Alvorada já encantavam o país e surpreendiam arquitetos do mundo inteiro. Na mesma época, as colunas de Niemeyer compunham o cenário para anúncios de carro, desfile de moda. E desde então é um dos traços mais representativos do Brasil. Juntas, elas dão um efeito de avarandado, de canto para uma rede. Mas não representam a estrutura nua, como pedia a arquitetura moderna. Niemeyer enfeitou a coluna e deu a ela brasilidade colonial e moderna, ao mesmo tempo. Quanto à miss, a estrutura parece que já nasceu pronta.     

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Quinta-feira, 09 de outubro de 2008

As grades do Cruzeiro, ainda



Reproduzo e-mail enviado por um morador do Cruzeiro a respeito da possibilidade de o STJ aprovar a retirada das grades da cidade. A propósito, o que estará em julgamento são as grades dos pilotis dos blocos do Cruzeiro Novo.





"Li, com muita atenção, a matéria sobre as grades que cercam os blocos de apartamentos do Cruzeiro Novo. E, respeitosamente, concordo com a senhora apenas em parte. Acredito que os índices de violência apresentados pelos órgãos de segurança pública são surrealistas e passam ao largo da realidade vivida pela população do Cruzeiro, uma vez que, em minha opinião, a criminalidade é latente e o consumo e tráfico de drogas são intensos. Os assaltos a mão armada são uma constante. Eu, por exemplo, presenciei uma tentativa frustrada de roubo de veículo. Na oportunidade, o meliante foi dominado pela população, e creio que ele só não morreu linchado por obra de Deus. Assim como a senhora, gostaria muito que o nosso Cruzeiro não tivesse grades, mas foi a solução encontrada para se proteger dos criminosos que tomam de conta dos pequenos espaços que separam um bloco do outro. Ah! Quase esqueci: há muito não vejo uma única patrulha da Polícia Militar; e, recentemente, inauguraram uma daqueles postos prometidos pelo governador Arruda; quem sabe, talvez, alguma coisa melhore. Vamos esperar. E, por último, concordo com a senhora em número, gênero e grau quando diz que o Cruzeiro é uma área tão nobre quanto o Sudoeste, mas é, sim, maltratada, desprestigiada e desprezada pelas autoridades. Acredito que isso ocorre porque os moradores do Sudoeste são bem mais importantes, pois lá vivem juízes, promotores, desembargadores, deputados, empresários, profissionais liberais de renome, autoridades do Poder Executivo nacional e local etc, etc, etc. Ou seja, pessoas muito mais influentes."


Robério Barroso



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