O cine Taguacenter quando ainda se chamava cine Taguatinga
O cine Lara, em Taguatinga, exibindo A Dama do Lotação, na década de 80
O Cine Paranoá, em Taguatinga
O Cine Itapoã, no Gama, hoje sucateado (Foto de Mila Petrillo, 1988)
O Cine Taguacenter (foto de Carlos Moura, 1991)
As sete maravilhas de SP
O jornalista Roberto Pompeu de Toledo publicou na Veja desta semana uma paródia da eleição das sete maravilhas de Brasília (a Catedral, o Palácio da Alvorada e o Palácio do Planalto, entre elas). Listou outras sete maravilhas, todas ligadas a escândalos de corrupção (Casa da Dinda, apartamento do ex-deputado Roberto Jefferson, Mansão da “República de Ribeirão Preto”, entre elas). Inspirada em Toledo, segue a lista das sete maravilhas de São Paulo:
# Casa de Paulo Maluf — Nos Jardins, onde mora há mais de 40 anos. O ex-prefeito, ex-governador e novamente candidato a prefeito é o campeão de processos na Justiça na lista recém-divulgada pela Associação dos Magistrados Brasileiros. Maluf responde a quatro processos no STF, por crimes vários, e a outros três no Tribunal de Justiça de São Paulo, por crimes de improbidade administrativa.
# Casa de Celso Pitta — O ex-prefeito de São Paulo mora no Jardim Paulista, bairro nobre da zona sul de São Paulo. Pitta é acusado, junto com Nahas e Daniel Dantas, de esquema de corrupção, lavagem de dinheiro, evasão de divisas, sonegação fiscal e formação de quadrilha.
# Casa de Naji Nahas — A mansão do megainvestidor, no Morumbi, ficou célebre depois que a Polícia Federal chegou para prender o proprietário. O vigia não quis abrir o portão para os policiais e foi ameaçado de prisão. A PF então pulou o muro para cumprir o mandado de prisão temporária.
# Daslu — O templo do luxo da elite brasileira, no bairro de Pinheiros, com sua anacrônica arquitetura neoclássica, carrega um pedido de condenação feito pelo Ministério Público Federal a sete envolvidos em suposto esquema de importações fraudulentas. Entre os citados, a dona da empresa, Eliana Tranchesi e seu irmão, Antonio Carlos Piva de Albuquerque.
# Sede do Tribunal Regional do Trabalho — A beleza de obra consumiu R$ 223,9 milhões, dos quais foram desviados R$ 169,5 milhões. O ex-juiz Nicolau dos Santos Neto foi condenado a 26 anos de prisão e agora o Ministério Público Federal quer que ele e os demais réus devolvam aos cofres R$ 504 milhões, valor atualizado do desvio. (Entre os réus, o ex-senador Luís Estevão, de Brasília.)
# Casa do banqueiro Edemar Cid Ferreira — No Morumbi, a casa teria custado R$ 142 milhões. Só a mesa de mogno da sala de jantar teria custado 390 mil dólares (perto de R$ 600 mil). O ex-dono do Banco Santos foi condenado a 21 anos de prisão por lavagem de dinheiro, evasão de divisas, desvio de recursos públicos. Responde em liberdade.
# Prédio onde funcionava a sede do Doi-Codi, Rua Tutóia, Paraíso, zona sudeste de São Paulo — Local onde foram torturados, mortos ou desaparecidos militantes de esquerda durante os anos de chumbo, entre os quais o jornalista Vladimir Herzog.
A menos de duas semanas das olimpíadas de Pequim, a nova arquitetura da China vai disputar com os atletas o interesse dos telespectadores e leitores de todo o planeta. A milenar arquitetura asiática agora tem um competidor à altura: as espetaculares obras de alguns dos mais importantes arquitetos do mundo. (Dizem que há também muita porcaria, coisa de que a arquitetura está cheia, seja na China ou em Brasília). O Grande Teatro Nacional, projeto do francês Paul Andreu, ergue-se (talvez seria melhor dizer “flutua” ) em frente à Cidade Proibida. Tem 150 mil metros quadrados, é coberto de titânio e vidro e as três salas, de ópera, de concerto e o teatro, abrigam, no total 5,4 mil espectadores. O teatro está ilhado num lago artificial e para se entrar nele é preciso mergulhar num túnel abaixo da linha da água. Os chineses já deram um apelido para o teatro, o ovo.
Em Roma ou em Brasília…
Lei aprovada na semana passada proíbe qualquer cidadão de cantar, gritar, comer, beber ou dormir na calçada, de jogar lixo na rua, colar pôsteres, grafitar e vender mercadorias sem licença . A desobediência custará ao incauto multa equivalente a R$ 128. A camisa de força foi baixada pelo prefeito Gianni Alemanno, de Roma, que, com isso, pretende principalmente afastar os bêbados do centro da cidade. Dizem que não se pode mais nem molhar os pés na Fontana di Trevi, a mítica fonte onde a sinuosa Anita Ekberg molhou suas pernocas sob o olhar extasiado de Marcello Mastroianni em La Dolce Vita.
Aqui ou alhures, em Brasília ou Roma, a ordenação da vida urbana acabará por transformar as cidades em maquetes de si mesmas. A nova lei imposta aos romanos e aos turistas tirará das ruas os vendedores de flores, os músicos com seus acordeões e violinos e ninguém mais poderá sair flanando pela cidade com uma latinha de cerveja na mão.
Brasília parece longe de chegar a essa neurose ordenadora da vida urbana, mas comete suas perversidades. Falo dos camelôs, sempre perseguidos e considerados uma espécie de nódoa no cartão postal. Não sem razão. A retirada dos feirantes da passarela e do estacionamento entre a Rodoviária e o Conjunto Nacional devolveu aos brasilienses um pedaço de Brasília que eles haviam engolido.
Camelô na rua é sinal de falta de emprego. Antigamente, os governos os arrancavam a pontapés e cassetetes. Hoje em dia, já se criou uma cultura de respeito ao vendedor ambulante e eles se organizaram para garantir a própria proteção.
Os da Rodoviária foram levados para o Shopping Popular (obra que custou R$ 25 milhões, preço de 50 apartamentos de três quartos no Sudoeste), mas o galpão não mostrou ainda a que veio. Os poucos camelôs que já montaram seu estabelecimento estão desalentados. Começam a nova vida com uma dívida que vai de R$ 2,5 mil a R$ 4 mil para comprar a estrutura do box , mas freguês que é bom, nada. E camelô precisa de ganhar o seu todo dia, porque come todo dia, anda de ônibus todo dia, e tem o aluguel à sua espera no fim do mês.
“Eu tirava uma média de R$ 500 por dia lá na Rodoviária. Aqui, olha só pra isso, cadê o povo?”, pergunta uma feirante, apontando para o vazio do Shopping Popular. Às três da tarde de ontem, havia três supostos compradores. Eu e mais duas mulheres.
“O fim do mês está chegando e eu ainda não sei como vou pagar as contas”, inquieta-se a ex-feirante, agora microempresária, porém mais insegura do que antes. No estacionamento vazio, os filhos dos novos lojistas jogam futebol. O menorzinho, 6 anos, diz que vai vigiar o carro. Quando ganha as moedas, sai correndo para contar à mãe, mãozinha fechada para não perder nenhum dos tesouros recebidos. Ele já sabe como é difícil levar dinheiro para casa.
Já começou a temporada dos espetáculos dos fins de tarde sobre nssas cabeças. Esse aqui foi registrado pelo Jorge Cardoso, foto de 2003. A cidade é só a moldura para o céu, o mais belo que meus olhos já viram (é bem verdade que eles não viram muitos, mas esse é tão monumental, tão infinitamente completo, que não sinto falta de céus desconhecidos).
(O texto abaixo é da arquiteta e urbanista Vera Ramos, moradora da Asa Norte, apaixonada por Brasília, como se verá. A foto acima é do Breno Forte).
Brasília, reconhecida mundialmente pelo urbanismo inovador e pela qualidade da arquitetura, lamentavelmente não é compreendida por brasileiros e brasilienses.
Mesmo assim, todos aqui reconhecem a excelente qualidade de vida que ela proporciona. Seus moradores e usuários gostam de viver e de estar na cidade, porém, não têm consciência do conjunto de fatores que geram tal sentimento. Os turistas admiram sua beleza, mas acham difícil entender seu traçado urbano diferente.
Os que ocupam cargos públicos demonstram não estarem preparados para lidar com Brasília, pois não a conhecem o suficiente para respeitá-la como deveriam. Há também os intelectuais que depreciam seu urbanismo e os jornalistas que denigrem a cidade por causa dos políticos que vêm para cá.
Nesse contexto geral, estão aqueles que a enxergam como palco de excelentes oportunidades de negócios, principalmente imobiliários.
A falta de conhecimento sobre a concepção urbanística de Brasília e suas características essenciais ocorre em todos os segmentos e acarreta propostas e intervenções equivocadas e nocivas. Hoje, estamos bem próximos do caos. As constantes pressões econômicas e sociais estão levando Brasília aos limites de sua capacidade.
A cada dia, a cidade inventada por Lucio Costa é agredida e descaracterizada mais um pouco. Um dos mais graves equívocos é considerar Brasília um centro regional e, como tal, promover seu crescimento quantitativo. Brasília é o centro histórico do Distrito Federal e, como tal, deve ser preservada.
As principais agressões à cidade têm origem na alta concentração de empregos e serviços e na inexistência de meios de transporte coletivo eficientes, modernos e adequados à nossa cidade-parque. Como decorrência, assistimos a alterações na legislação urbanística, desvirtuamento de usos, ampliação de estacionamentos, destruição de áreas verdes e ocupações de áreas públicas, muitas vezes autorizadas por leis distritais inconstitucionais ou liminares do Poder Judiciário.
A falta de conservação de edifícios, monumentos e espaços públicos e, ainda, a falta de urbanização e de humanização das áreas de estar comprometem profundamente a preservação de Brasília.Diante dessa triste e vergonhosa realidade, cabem as perguntas:
— Por quanto tempo mais vamos ficar na superfície, sem nos envolvermos a fundo com a grave situação em que se encontra o nosso patrimônio cultural?
— Por quanto tempo mais as autoridades usarão frases do tipo "Vamos preservar Brasília—Patrimônio Cultural da Humanidade..." enquanto, na prática, as poucas ações se diluem em meio a tantas agressões?
— Por quanto tempo mais será desconsiderado o fato de Brasília estar protegida legalmente nas instâncias distrital, federal e mundial?
— Por quanto tempo mais essa cidade diferente e única será tratada como se fosse uma cidade tradicional?
— Por quanto tempo mais vamos ficar sem entender a lógica do urbanismo e o tombamento da cidade?
— Não dá mais para protelar! Se a intenção for realmente preservar Brasília, é hora de se informar e de agir efetivamente nesse sentido. E isso vale para todos: governo e sociedade. Não basta querer preservar. É preciso saber como preservar. É preciso conhecer, entender, dar valor e respeitar.
— É hora de tratarmos com sensibilidade e responsabilidade a preservação do Conjunto Urbanístico, Arquitetônico e Paisagístico de Brasília.
(Esse texto foi publicado no Correio Braziliense, edição impressa, de segunda-feira passada)
Este prédio de fachada
ondulada também é obra de Ruy Ohtake. É um condomínio residencial de São Paulo, Unique, obra de 1988. É considerada uma das obras mais importantes do arquiteto. É meio lúdico e o que poderia ser excesso de detalhes (as ondas alternadas) se transforma num conjunto de concreto que parece se mover. Niemeyer considera
Ohtake um dos melhores representantes da arquitetura moderna brasileira. As obras dos dez últimos anos de Ruy Ohtake estão reunidas na coleção Porfólio Brasil - Arquitetura, da editora JJ Carol, lançada recentemente.
Ruy Ohtake é considerado um dos arquitetos que mais influências receberam de Oscar Niemeyer. O filho de dona Tomie tem traço sinuoso, por vezes leve e colorido. É moderno, mas é contemporâneo, não passa aquela sensação de arquitetura datada dos anos 40/50/60.
Uma de suas obras mais consagradas, o Hotel Unique (foto lá em cima), em São Paulo, já mereceu fartos elogios do jornal New York Times, que, numa reportagem sobre São Paulo, feita em 2004, considerou a obra “um emblema das ambições globais da cidade” e “um desses raros exemplos de arquitetura contemporânea que provoca reações em quase todos”.
O arquiteto tem duas obras em Brasília, o Brasília Shopping e o hotel Blue Tree, e uma terceira em andamento. O Blue Tree, que passou a se chamar Brasília Alvorada Hotel, é uma obra infeliz para o prestígio de Ohtake. O hotel vermelhão desobedeceu a escala de Brasília e apossou-se do lago sem nenhum respeito à suavidade da orla. E deu início à ocupação desarvorada do lago pela especulação imobiliária.
O Estádio Bezerrão, no Gama, também é obra do arquiteto. A construção do novo estádio já dura mais de três anos, com idas, vindas, mudanças no projeto e paralisações na obra. Nada a ver com o arquiteto. Coisas do governo do Distrito Federal. A inauguração do estádio estava marcada para o último 21 de abril, mas foi adiada para outubro. Pela foto do Breno Fortes dá pra ver que é um belo estádio. O Gama merece.
A seca, o álcool e a razão
Será uma seca histórica a que começa a nos deixar com os olhos ardendo e a pele crocante. Não por excessos temperamentais da natureza, mas por força de lei. Aquela, a da outra seca. Não nos fará mal reduzir o consumo alcoólico no agosto/setembro que nos espera.
Quem gosta de uma dose sabe que a ressaca no tempo da seca é devastadora, suga o restinho de hidratação que nos sobra. Então, vamos às secas.
De início, sou forçada, por dever de ofício, a confessar aos leitores que meu primeiro impulso, pós-lei seca, foi escrever longo e desaforado tratado em defesa de meu livre arbítrio. Afinal de contas, cabe a mim decidir se bebo ou não e quando, onde e como fazê-lo. Seria caudaloso tratado sobre os direitos individuais, um solene pedido de habeas corpus à cerveja, ao vinho, ao que seja lá que você (e eu) gostemos de beber.
Quando me ocorreu que não ficaria bem uma senhora de respeito, mãe de família, defender o direito ao álcool. Mas havia algo mais e eu não sabia identificar exatamente o quê. Só depois das primeiras estatísticas constatando a diminuição no número de mortes no trânsito, tomei a devida dose de humildade e pude examinar com mais apuro a minha ira.
Era muito bonito ver nos seriados americanos e nos filmes europeus a cultura do toma-a-chave-que-hoje-eu-vou-beber. Povo civilizado, eu me dizia. Mas na hora que a lei bateu na minha vida — eu que fui da geração de estudante e jornalista que saía da faculdade e da redação direto para o bar, noite sim e outra também — , nessa hora eu quis levantar a crista.
Até tentei catar um ou outro argumento de liberdades individuais, direito de ir e vir, proibição de levantar provas contra mim mesma, patatipatatá, mas todas, no final das contas, batiam num muro de constrangimento que eu não sabia exatamente de onde vinha. Não era apenas o recato de uma senhora de respeito.
Aí descobri: eu queria a razão do meu lado, mas ela estava do lado oposto. Com algum esforço, poderia ter feito o que se faz com razoável freqüência: inventar uma razão que me desse razão. Basta ter alguma inteligência e outro tanto de conhecimento e, pronto, logo se acha um arrazoado bonito e impressionante para defender esta ou aquela idéia, até as mais estapafúrdias.
Mas há fatos que são maiores que qualquer cínico arrazoado: se o ser humano bebe para fugir da realidade, ou para diminuir por algum tempo o peso do real, ou dele descansar ou apesar dele se alegrar, se beber só é bom porque levanta (pouco, muito ou mais ou menos) os dois pés do chão pedregoso da vida, então quem bebe está proibido de administrar o que quer que seja que dependa inteiramente da realidade — mais ainda quando há vidas em risco.
Para nós brasileiros, a lei seca é um tanto mais penosa por conta do péssimo serviço de transporte público e caro serviço de táxi, especialmente em Brasília. Mas a causa é sagrada.