Os prédios residenciais da cidade de São Paulo estão terceirizando a portaria, substituindo os porteiros por seguranças profissionais; a figura a quem se pede socorro na hora do aperto, com quem se conversa sobre o tempo ou o jogo, sairá de cena e em seu lugar virá um sujeito estranho, indiferente e empertigado. Não demora e Brasília também irá aposentar o zelador que mora debaixo do bloco para contratar uma empresa que oferecerá a tecnologia de ponta no cada vez mais procurado serviço de segurança profissional.
A mudança está incluída no pacote de aceleração do crescimento da desumanidade no mundo contemporâneo. Universaliza a percepção de Nelson Rodrigues. Ele dizia que passava semanas sem encontrar um ser humano. O anjo de obsessão acusava, com a frase provocadora, a raridade das aparições humanas no seu cotidiano. Há de se registrar que ele experimentou um tempo histórico bem menos cáustico que o da primeira década do século 21.
A possibilidade de que, mais dia menos dia, ficarei sem porteiro me causou uma espécie de orfandade antecipada. Mesmo que eu não tenha tempo para bate-papo debaixo do bloco, o que em si já é forte indício de desumanização, mesmo assim a ideia de que no térreo mora uma família que, em caso de urgência, pode me socorrer e aos meus queridos, me ajuda a dormir melhor.
O 192 é muito pouco para quem vive como um louco e mora no Plano Piloto, parafraseando o incrível Renato Mato. A boa vizinhança não é uma qualidade candanga. Eu mesma, vinte e cinco anos depois, já aderi à educada indiferença com que o brasiliense trata o brasiliense no território que vai do instante em que se desce do carro ao que se abre a porta do apartamento.
É certo que, quanto maior a cidade, maior a indiferença. Mas Brasília não é tão grande assim, e o Plano Piloto tem o tamanho de um bairro. E se comporta como uma cidade do interior quando avisa, em e-mails como o que acabei de receber, que há uma quadrilha de ladrões de bolsas agindo em certa rede de restaurante frequentada pela classe média-média alta.
Na quadra onde moro e nos arredores dela, os porteiros exercem uma vida comunitária que nós, os moradores, até onde sei, desconhecemos. Eles têm um time de futebol que se apresenta semanalmente na quadra; fazem churrascos na pracinha e conversam, conversam, conservam. Cedinho, antes mesmo das sete da manhã, alguns deles já estão reunidos debaixo de um dos blocos para mais uma rodada de bate-papo. Cabe a eles saborear vagarosa e continuamente o gosto de viver numa quadra bem arborizada, pavimentada e silenciosa do Plano Piloto.
Nos, os que vivemos acima dos pilotis, não temos tempo a perder. Não debaixo do bloco. E dizem por aí que os bem-sucedidos somos nós. Estou quase desacreditando. Sem os porteiros que convocam diariamente a nossa humanidade, vou desacreditar mais ainda.
O que é uma mulher? Sou há um tempão e ainda não sei a resposta. Até Freud ficou sem saber e era nesse não-saber que estava a fonte para uma resposta que não pode existir. O mistério, portanto. Existência fugaz, diria.
Procuro a mulher que sou e a primeira imagem que me aparece é de uma menina espantada com o corpo a mais que havia nos meninos. Corpinho pendurado o deles. Corpinho escondido o meu. Eles usavam shorts e eu, sainha, o que me deixava em desvantagem.
Meninos-caçadores, os da minha infância. Subiam em árvores, nadavam nos rios, jogavam finca, matavam passarinho com estilingue, disputavam quem fazia o cerol mais envenenado e depois lançavam pipas para o combate no ar. Garoto se cortava, se queimava, se quebrava e pouco depois voltava para as incríveis aventuras de ser menino.
Não, não era inveja o que sentia. Era admiração. Os garotos da minha infância eram meus heróis. E era desse contraste que eu sabia, sem saber que sabia, que era uma menina. Algumas vezes, eu tentava ser menino, mas nunca fiquei muito à vontade subindo em árvore ou jogando finca. Preferia ficar na janela admirando a meninice máscula.
Filha do finalzinho dos anos 50, eu já via adolescentes usando calça comprida e moças trabalhando no comércio e na indústria. Não quis aprender a bordar, mas admirava as cores fortes das linhas macias que enchiam o cesto da professora de bordado. Também não tive jeito para a cozinha. Meu arroz do tempo de faculdade era famoso por sua extraordinária capacidade de se transformar num mingau.
Desde muito cedo, soube que teria de ir à luta para dar conta da minha sobrevivência e a de meus queridos. Tive de virar caçadora como os meninos de estilingue da minha rua. E lá fui eu, com as armas que eu inventava para cada guerra que surgia. Os garotos empinadores de pipa haviam se transformado em estudantes universitários de calça jeans, chinelo, cabelos compridos e livros de Marx, Engels e Lênin debaixo do braço. E eu era um deles: jeans, chileno e Marx.
Por esse tempo, a diferença de gênero, como se diz hoje, foi esmaecida. Eu já não admirava os garotinhos da janela. Estava ao lado deles, pensando, discutindo, argumentando, dedo em riste, palavra afiada tanto quanto a deles. Então passei a acreditar que não havia nenhuma diferença entre homens e mulheres, exceto o corpo a mais que eles tinham.
Algum tempo depois, a maternidade veio me lembrar que eu também tinha um corpo a mais — e que não se manifestava apenas num jorro vermelho a cada mês. Ele servia de ninho para um outro corpo, uma outra unidade. Mas a maternidade não me ajudou a desvelar o mistério do que é ser mulher. Ela me ensinou a ser mãe — outro barato, grande barato.
O estilingue, as linhas do bordado, o mercado de trabalho, a maternidade, nada disso me ajudou a desvelar o mistério. A mulher só existe no contraste com o homem e essa não é uma questão feminista, machista ou sexista, nem biológica nem sociológica nem antropológica.
Projeto do Puerto de la musica, de Niemeyer, na Argentina
O nem já tão novo site de Oscar Niemeyer trouxe um salto de qualidade à biografia do arquiteto. Desenvolvido pela caos!, o oscarniemeyer.org.br caminha pela vida, pela obra, pela história do Brasil e do mundo no século 20 e começo do 21. De fácil navegação, o site conseguiu sintetizar virtualmente 102 anos de vida e mais de 70 anos de atividade profissional do mais importante arquiteto brasileiro. Está muito mais informativo, iconográfico e ágil que o anterior. Nele, pude conhecer um dos projetos mais ou menos recentes de Niemeyer, o Puerto de la musica, um teatro a ser construído em Rosário, Argentina. É um Niemeyer em variação surpreendente sobre ele mesmo. Como um poeta que reescreve o mesmo poema para fazê-lo novamente novo.
Cidade Administrativa, Belo Horizonte, Oscar Niemeyer
Lapso aritmético
Entusiasmados com a inauguração da Cidade Administrativa, obra de Oscar Niemeyer, os mineiros estão cometendo um, digamos, lapso aritmético. Com o novo conjunto arquitetônico em Belo Horizonte, Minas não se transformou no Estado com maior número de obras do arquiteto. Esse mérito é de Brasília. Vamos aos fatos, às circunstâncias e aos números.
Belo Horizonte abriga a primeira grande obra de Oscar Niemeyer, o conjunto da Pampulha, projeto que alertou o mundo, em 1940, para o surgimento de uma arquitetura moderna à brasileira. Com a Pampulha, o concreto passou a fazer curvas. São quatro as obras: a igreja, a casa de baile, o cassino e o clube.
Antes de Pampulha, o arquiteto havia feito o Grande Hotel de Ouro Preto. Depois, Niemeyer fez outros 15 projetos em Minas, de casas a escolas, em Belo Horizonte, em Cataguazes, em Diamantina, em Juiz de Fora e em Itabira (o Memorial Carlos Drummond de Andrade).
Finalmente, o arquiteto executou em Belo Horizonte, obra tão ou mais grandiosa, em volume e extensão, quanto a Pampulha, a Cidade Administrativa. Passei, de carro, pela obra dias antes de ela ser inaugurada. Esperava uma decepção com a que me causou o Conjunto Cultural da República, na Esplanada. Nada disso. Apesar de ser obra desenhada e executada bem depois, o conjunto projetado para abrigar todo o poder executivo de Minas é leve, tem espelho d’´água e projeto paisagístico — grama, grama, grama, que Niemeyer se recusou a colocar no conjunto cultural.
O Palácio Tiradentes é uma surpresa. O prédio está suspenso por tirantes metálicos, sustentados por dois grandes pórticos, como se fossem uma cobertura descolada do que deve cobrir. Ao todo, são seis edifícios, entre eles dois prédios gigantes, um semiconcâvo, outro semiconvexo, voltados um para o outro. Há dois outros volumes, um deles com a forma do Museu Nacional, só que muito mais leve.
Os mineiros, portantos, podem se orgulhar de ter um conjunto da obra recente de Niemeyer no qual se respira leveza, onde áreas verdes e laguinho bucólico envolvem a arquitetura. Brasília não mereceu tamanho cuidado no Setor Cultural Sul.
Mas é bom parar por aí. A glória de ter o maior conjunto de Oscar Niemeyer é de Brasília e dificilmente deixará de ser. Até hoje não foi feito um levantamento rigoroso de todas as obras do arquiteto na cidade — algumas das quais os projetos se perderam ou estão apodrecendo em alguma gaveta do GDF; e há muitas outras que ele mesmo não se lembra ou não reconhece como suas.
Além dos palácios, da Catedral, do Teatro Nacional, do Brasília Palace Hotel, de algumas superquadras, da Rodoferroviária, de escolas classes e escolas parque, da Igrejinha, dos ministérios, dos anexos, do CCBB, da Casa do Cantador, da Casa do Teatro Amador, do Museu do Índio, do Memorial JK, do QG do Exército (belíssimo), , de todas as obras pontilhadas na Praça dos Três Poderes e atrás dela, além de tudo isso e muito mais que não cabe aqui, há pontos de ônibus, pontos de táxi, casas, relógio do sol…
Brasília abriga o maior número de niemeyeres do planeta, não custa reafirmar.
Manchete do The New York Herald sobre o naufrágio do Titanic
Cada um por si
Nunca se sabe do que se é capaz até que cada um de nós seja colocado à prova. Em momentos de crise, os credos, as crenças, as teorias, as promessas e o que a gente pensa da gente mesmo (e do outro) podem virar pó. As situações extremas são reveladoras de quem somos e de quem o outro é. E as surpresas serão muitas, mais pra pior do que pra melhor.
Desconfiados de que não somos tão magnânimos quanto gostaríamos, pesquisadores australianos desenvolveram uma pesquisa baseada na reação de passageiros e tripulantes do Titanic e do Lusitânia. No primeiro naufrágio, ocorrido em 1912, morreram perto de 1,5 mil pessoas. No segundo, três anos depois, a lista de mortos tinha cerca de 1,2 mil nomes.
A história do Titanic todos conhecem. A do Lusitânia nem tantos. O tlansatlântico foi alvejado por um submarino alemão, o que acabou conduzindo os Estados Unidos à 1ª Guerra Mundial. O Lusitânia afundou em dezoito minutos. Depois de bater no iceberg, o Titanic demorou duas horas e 40 minutos para afundar.
O que intrigou os pesquisadores e provocou a pesquisa foi a diferença no comportamento dos passageiros e tripulantes de um e de outro navio. Os homens do Titanic tiveram mais espírito solidário, por isso foi grande o número de mulheres e crianças sobreviventes. No Lusitânia, isso não ocorreu. Os homens trataram de se salvar e entregaram mulheres e crianças à morte.
Os pesquisadores concluíram que no Titanic os homens tiveram tempo para ser solidários. O navio afundou vagarosamente e seus ocupantes acreditavam que seriam resgatados. O torpedeamento do Lusitânia não deu tempo para que a solidariedade se impusesse. Foi cada um por si. “Quando é preciso reagir de maneira muito, muito rápida, os instintos do ser humano costumam se afirmar com velocidade muito maior do que as normas sociais apreendidas”, disse um dos pesquisadores. E o instinto de sobrevivência é primordial em bichos e humanos.
Para ser solidário, o ser humano precisa de tempo, é o que conclui a pesquisa. Dito de outro modo: o ser humano precisa de outro ser humano para ser mais ser humano. É na extensão do contato com o outro que ele se humaniza. Caso contrário, pode se reduzir a um bicho em busca da própria sobrevivência
Onde então encaixar a reação dos heróis que, em situação extrema, dão a vida pelos outros? Brasília tem o seu: o sargento Silvio Holembach. Ele passeava com a família no zoológico. Ouviu gritos de uma criança e pulou no poço das ariranhas para salvá-lo. Não pensou. Não avaliou os riscos. Não suportou a ideia de uma criança estar sendo comida pelas ariranhas e não fazer nada. Mas esses são os heróis, feitos de uma substância rara. A maioria de nós corre o risco de virar bicho para se salvar. E nem é preciso estar no Titanic ou no Lusitânia.
O dia nem bem começou e já fiquei pequena, menorzinha, dependência completa de empregada, roupa tamanho 36.
Tomo conta do meu real tamanho, o metro e sessenta e oito de minha condição humana, e ao mesmo tempo reconheço o milagre: estou viva enquanto ao meu redor a terra ruge, ronca, sacoleja, troveja , venta, ferve. Um haitiano fugiu de Porto Príncipe, depois do terremoto e foi para Santiago e a Terra foi atrás dele para novamente trepidar sob os pés do fugitivo. Que azar, é a primeira coisa que penso, até que alguém mira o universo de um jeito diferente e me avisa: que sorte, ele sobreviveu a duas catástrofes.
Abro a caixa de mensagem e fico mais pouca ainda. Pouquitíssima, porque mesmo apequenada não largo meus superlativos. Tudo treme, tudo pede, tudo se movimenta, tudo manda sinais. Pelos e-mails que pulam dentro da caixa dá pra ver o sucesso que fez a ideia do poeta Nicolas Behr de mudar a destinação de uso da nova sede da Câmara Legislativa. Uma leitora sugere que o conjunto monumental seja transformado na sede de um arquivo histórico e documental do Distrito Federal
Um leitor quer que o conjunto de prédios abrigue o MAB, o Museu de Arte de Brasília, que há tempos insanos espera por uma reforma. Outro sonha com um centro de cultura popular à beira do Eixo Monumental. (“Aquela Casa é do povo. O povo merece estar num local confortável”, já declarou o governador em exercício Wilson Lima).
Pode não dar em nada, mas o movimento, por si só, vai impor aos distritais o constrangimento que eles merecem. Se é que eles ainda têm a capacidade de se sentir constrangidos.
Alguém me conta que o escândalo da bolsa, da meia e da cueca cancelou a edição especial que uma revista planejava publicar pelos 50 anos de Brasília. Mas fico sabendo, ao mesmo tempo, que outras revistas, essas especializadas em arquitetura e urbanismo, preparam reportagens sobre a cidade. Uma jovem repórter de uma rádio alemã está em Brasília preparando um áudiodocumentário sobre a história da construção da nova capital.
Recebo cópia de artigo do jornalista Mauro Santayana que me faz pensar. Diz Santayana, arguto pensador político, que há duas Brasílias, a municipal e a federal. A que compreende a vida comunitária, que seria legislada por uma câmara de vereadores, como havia no velho Distrito Federal. E a federal, a monumental, a que representa o país. E quem deverá cuidar dessa, sugere o jornalista, é o governo federal, que “terá de ser soberano sobre o território de sua sede”. (O texto completo está na internet, sob o título “Brasília: o todo e a parte”). A autonomia do DF foi, diz ele, um erro da Constituinte de 1988.
Brasília é que ficou grande demais para um Brasil que nem dá bola pra ela. E eu vibro ao vê-la discutida, avaliada, investigada, questionada. Brasília vai sair bem melhor disso tudo, podem apostar. E estarei nela até quando durar o milagre de estar viva, do tamanhinho que sou, bem pouca pra os tantos estímulos e os assombros do viver.
O convite chegou de mansinho, 45 anos depois. As amigas do ginásio no colégio de freiras de Fortaleza estavam organizando uma festa de reencontro. No começo, Sara reagiu com certo desdém. Não iria de jeito nenhum, não gosta dessas festas, imagina reencontrar amigas de escola quase meio século depois… e se ela estivesse mais gorda que as outras, mais feia que as outras, mais velha que as outras, e se as outras estivessem mais bem-sucedida do que ela e se…
Seu medo maior, porém, era o de alguém lhe pedir o e-mail. “Não tenho e-mail, não gosto desse troço, não sou desse mundo”, ela retrucava a cada vez que os filhos tentavam convencê-la a comprar o bilhete Brasília-Fortaleza, ida e volta. “Faça um e-mail, mãe”, sugeriu um dos filhos. “Não quero saber de e-mail, está muito bom do jeito que está. E-mail não me faz a menor falta.”
A campanha para que ela fosse à festa continuou. “Mãe, deixa de ser boba, você vai encontrar suas amigas de adolescência, vai se lembrar dos bons tempos e vai fazer uma viagem sozinha, sem filhos, netos, confusão”. Sara acabou aceitando a ideia e deixou que os filhos preparassem a viagem. Ela não quis pensar muito na história, pra não se deixar paralisar pela ansiedade ou pelo medo. Lá foi Sara, 60 anos, ao reencontro de sua adolescência.
Ela, que não bebe gota d’álcool, aceitou o primeiro chope que lhe ofereceram; o segundo; o terceiro. E nem percebeu. As amigas foram chegando, reconhecendo-se umas às outras, 45 anos depois. Algumas mais jovens, mais magras, mais bonitas; outras mais velhas, mais gordinhas, menos bonitas. Umas mais ricas, outras remediadas e algumas para quem a vida foi mais pedregosa.
Todas elas, naquela noite, garotas de 15 anos reacendendo as lembranças das estrepolias no colégio de freiras; as ingênuas paqueras com os meninos do colégio militar, do outro lado da rua; as mirabolantes fugas de sala de aula; o dia em que uma delas pulou a janela e caiu na cabeça de um gorducho; o cigarro escondido; os primeiros namoradinhos; o beijo na boca, façanha espetacular para uma adolescente do começo da década de 60.
Quando chegou a inevitável hora de cada uma contar o que havia feito da vida nos últimos 45 anos, surgiram juízas, médicas, advogadas, funcionárias públicas, engenheiras. Sara, então, disse que havia se dedicado à família. Que tinha quatro filhos e oito netos. Nenhuma de suas amigas de adolescência tinha tido tantos netos assim! Contou que adorava cozinhar. Que aos domingos os netos já chegavam pedindo: “Vó, o bolo”. Que fazia bolos para os filhos, os netos, os amigos dos filhos e dos netos, os amigos dos amigos, para toda a gente que um dia provara a massa (Ela não disse desse modo exibido; eu é que estou temperando a modéstia de dona Sara).
Depois que contou quais tinham sido suas conquistas na vida, Sara pediu o quarto e derradeiro chope. Sorveu os goles como quem saboreia de uma só vez o melhor que a vida lhe deu.
PS. O desenho acima é de Paul Klee, Tete d'enfante
Depois de ler na Folha de S. Paulo de ontem que os deputados distritais são os mais caros do Brasil, o poeta Nicolas Behr lançou uma campanha para transformar a nova sede da Câmara Legislativa numa escola de ciências políticas e num museu da cidadania.
O movimento para impedir que os distritais ocupem o conjunto monumental que fica ao lado do Tribunal de Justiça do DF irrompeu da indignação do poeta com os dados apresentados pelo jornal. O custo de cada deputado distrital, neste 2010, será de R$ 14 milhões, segundo levantamento da Folha. O parlamentar de Brasília é o mais caro do Brasil.
Mais alguns dados pra inflar a indignação de Nicolas, o poeta do iogurte com farinha, das pernas tortas das árvores do cerrado e do desejo de viver numa Brasília decente.
O repórter Renato Alves contou em reportagem publicada no Correio no domingo retrasado que a nova sede da Câmara custou três vezes mais que o preço inicial. Calculada inicialmente em R$ 42 milhões, saltou para R$ 83 milhões e será concluída ao preço de R$ 120 milhões. A Câmara tem 24 distritais, porém, estranhamente, a nova sede terá 36 gabinetes para deputados, cada um deles com 90 metros quadrados — maior que apartamentos de três quartos de classe média-média em Brasília.
A nova sede da Câmara, quiçá o museu da cidadania, tem dois pisos térreos, um inferior e um superor. São dez andares, 48 mil metros quadrados ao todo. Três dos andares foram destinados a estacionamento privativo. O plenário fica num volume redondo com acesso por uma praça ou por um corredor ligado ao prédio central.
Renato Alves entrou no conjunto de prédios e disse que o salão que antecede o plenário é muito parecido com o Salão Verde do Congresso Nacional. Vale ressaltar a descrição detalhada das cadeiras destinadas aos distritais. Elas são de couro natural, com encosto de cabeça independente e tela anti-transpirante para que os cabelos de suas excelências estejam protegidos dos suores. Os braços das cadeiras são cromados ou em alumínio com regulagem de altura e de abertura. Haverá apoia-braços em poliuretano, regulagem de tensão no encosto, base de alumínio com cinco patas (!!) e pistão a gás cromado, seja lá o que for isso.
Não fosse o escândalo das meias, bolsas e cuecas, o sorteio dos gabinetes teria ocorrido em 2 de dezembro passado, com a presença do governador José Roberto Arruda, convidado para assistir a tão importante e decisivo compromisso. Não fossem os acontecimentos que revolveram as entranhas da política candanga, os distritais teriam se mudado para a nova sede em 2 de fevereiro passado.
No e-mail que deu a largada para a campanha que pretende mudar a destinação do conjunto monumental, Nicolas Behr sugere que a UnB ou a Unesco ou as duas encampem a ideia de ocupar o monumento de R$ 160 milhões. Boa lembrança: antes de assumir interinamente o governo do DF, o deputado Wilson Lima disse que não via nenhum problema no custo da obra. “Aquela casa é do povo. O povo merece estar num local confortável.”
Nesse aspecto,o governador e o poeta concordam: a nova obra no Eixo Monumental é da população de Brasília.
Projeto do Lelé para a rede Sarah do Rio de Janeiro
Um homem inspirador
Um doce e discreto passarinho me contou linda história que compartilho com os leitores desse pé de página. É uma pílula para suavizar o fim de semana que começou com mais uma catástrofe. O passarinho, na verdade, uma passarinha, assistiu a um dos muitos encontros de dois mestres da delicadeza, da arquitetura e da arte, Lelé e Athos.
Contou-me o passarinho que Lelé estava às voltas com o projeto da rede Sarah em Macapá, feito em parceria com Athos, como tantos outros. De passagem por Brasília, o arquiteto foi visitar o artista em seu apartamento na 315 Sul, “rotina sagrada sempre que vinha à cidade”, nas palavras do passarinho. Passadas as primeiras conversas amenas próprias de um reencontro de amigos, Lelé entrou no assunto profissional, o projeto de Macapá, e comentou a respeito do terreno: “Athos, sabe que lá tem um vento forte permanente? E o local é mais elevado. Então, pensei em fazer uma estrutura metálica tubular que produzisse som em vários tons. Uma flauta tocada pelo vento. Seria alta, com uns dez metros, os tubos em forma helicoidal.”
Athos ouviu e respondeu, com “seu jeito pausado e manso”, segundo palavras do passarinho: “Uma flauta toda colorida”. Os dois então envolveram-se em um silêncio que, na contagem do relógio pode ter sido curto, mas para os dois foi o tempo da comunhão, para usar um termo do pássaro contador de histórias (que me pediu pra ficar anônimo). Lelé, então, quebrou o silêncio, cheio de entusiasmo: “Isso! Toda colorida. Vamos fazer?”. Athos topou: “Vamos. Me manda um esboço, vou estudar as cores”.
Não deu tempo. Athos já estava sendo severamente castigado pelo Mal de Parkinson. Lelé concluiu o projeto sem a flauta. Na sexta-feira passada, o arquiteto confirmou a história, e nem precisava. O passarinho que testemunhou o encontro é dos mais confiáveis.
João Filgueiras Lima é o homenageado da edição de fevereiro da revistra Trip que aproveitou para também celebrar os 50 anos de Brasília. Lelé veio para cá em 1957, com Oscar Niemeyer, seu mestre. Com o tempo, o arquiteto desenhou um próprio, singular, inovador, delicado e discreto caminho na arquitetura moderna.
O arquiteto Ciro Pirondi diz, na Trip, que “Lelé é o Brasil que a gente queria ter. Numa época em que o arquiteto virou celebridade, ele resgata a profunda responsabilidade social da profissão.”
Na mosca. Lelé não gosta de dar entrevista, não faz nenhuma questão de aparecer na mídia. Tem produzido nas últimas décadas uma coleção de admiráveis obras de arquitetura país afora e adentro, a maior parte delas vinculadas a projetos sociais. Toda vez que eu converso com Lelé, cinco minutos que seja, por telefone, saio embevecida. Há um grande ser humano sustentando o grande arquiteto. Lelé é um homem raro, inspirador.
Poderia falar de Wilson Lima, o até agora governador interino de Brasília, de seu gosto pelo excesso de gastos.
Poderia falar da visita do arcebispo, dom João Braz Aviz a José Roberto Arruda e do isolamento a que os amigos tão rapidamente condenaram o governador afastado.
Poderia falar na possibilidade, cada vez mais aventada, de intervenção no Distrito Federal.
Poderia falar da possibilidade, cada vez mais comentada, de Arruda ficar preso por tempo indeterminado.
Poderia falar da possibilidade de Joaquim Roriz voltar a assumir o Governo do Distrito Federal.
Poderia falar do terremoto político que está interrompendo carreiras, dissolvendo ambições e derrubando máscaras.
Poderia falar da corrupção que corroeu a vida política da capital do país.
Mas não vou falar de nada disso. Não sou de política, não gosto de muita proximidade com esse mundo, não tenho traquejo para lidar com as manhas e artimanhas dos jogos de poder (e nem faço questão de aprender, está muito bom do jeito que está). A essa altura do terremoto contínuo, preciso de oxigênio, de pausa pra continuar acompanhando os tremores de terra no chapadão. Por isso vou contar uma visão que tive no domingo à noite, da janelinha do avião.
À medida que o avião subia aos céus, surgia um bordado reluzente, feito de linhas curvas e retas, mais retas do que curvas. Como se um imensurável transatlântico ocupasse o mar, todo ele iluminado em cores douradas. Era um mar aberto e verticalmente estufado. Tudo indicava que ele, o mar, tinha orgulho de si mesmo, daí tanta altivez topográfica.
Entre os extensos riscos longilíneos do bordado havia pequenos retângulos também feitos de luzes. E várias luzes dentro de cada retângulo, tudo em poético equilíbrio geométrico. Tudo reluzia no transtlântico que eu via da janelinha pendurada no céu. Até os vazios do bordado realçavam as formas do ao-redor.
Quem terá feito bordado tão monumental, cuidadosamente desenhado e tão delicado? As luzes desenham asas e desenham corpo — seriam constelações de uma galáxia desconhecida? Que joalheiro-artesão modernista terá cerzido bordado tão simétrico e harmonioso? Nenhuma irregularidade, nenhum rococó, nenhum excesso, nenhum tropeço, nenhuma ostentação.
Quem chega do céu, desavisado, pode até imaginar que se aproxima de uma cidade como as outras que iluminam o mundo quando o sol pede pausa. Mas logo virá a dúvida: será mesmo uma cidade? Não se trata do aglomerado de luzes aleatórias de uma metrópole.
Pode até ser as lâmpadas de uma cidade planejada, mas não é só isso. O bordado que vi, da janelinha voadora, era a cerzidura de um sonho sendo de novo sonhado.